Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique.

Antes de iniciar uma conversa sobre mulheres nigerianas refugiadas no Brasil, é necessário apontar a negligência grosseira da mídia global em relatar qualquer notícia sobre a Nigéria. Como um país com vastos recursos naturais e cultura vibrante, as menções ocasionais a ele estão predominantemente no contexto do terrorismo islâmico. O Boko Haram é de fato uma questão urgente, que já existe há décadas e afeta milhões de pessoas. Embora essa organização ofusque todas as outras notícias sobre a Nigéria, ela não é discutida com a urgência que merece. Qualquer preocupação genuína com o bem-estar dos estadunidenses, após o 11 de setembro, deve ser equilibrada com a preocupação com o bem-estar dos nigerianos no conflito contínuo com o Boko Haram. A taxas alarmantes, esse conflito vem deslocando populações vulneráveis que são ainda mais silenciadas nos países estrangeiros de refúgio.
O Brasil, apesar de sua conexão inigualável com a África, está totalmente despreparado para lidar com o influxo de refugiados africanos, especialmente mulheres nigerianas muçulmanas. Ao chegarem, essas mulheres são ainda mais vitimizadas pela fragilidade das instituições brasileiras e pelo desconhecimento da população local quanto as suas situações. Isso leva, é claro, a mais precarização da vida, que pode não envolver o Boko Haram, mas envolve ambientes de trabalho exploratórios e clandestinos, bem como o isolamento religioso e social.
Para entender os fracassos dos esforços de contraterrorismo na Nigéria, talvez devêssemos olhar para o fracasso dos esforços de contraterrorismo de um paradigma geopolítico pós-11 de setembro desencadeado pelos Estados Unidos. Certamente, o conflito étnico-religioso naquela região é resultado de fronteiras arbitrárias estabelecidas por um regime colonial britânico. Centenas de grupos étnicos foram agrupados como norte ou sul da Nigéria, que logo foram “amalgamados” (“amalgamated”) com o único propósito de facilitar a contabilidade da exploração que a coroa britânica estava fazendo pelo rio Níger. Sem falar em todos os anos de conflito antes da ocupação britânica, no auge do tráfico de escravizados. Tudo isso gerou o contexto de brutalidade que emoldura os eventos da virada do século 21.
Boko Haram é uma “franquia” (“franchise”) da Al-Qaeda. De acordo com Andrea Brigaglia, ex-diretor do Centro para o Islã Contemporâneo, a “frouxidão” das conexões entre essas franquias tem sido tanto um ponto fraco quanto forte na estratégia da Al-Qaeda. Por um lado, facilitou a velocidade e a vastidão de seu alcance, mas, por outro, levou a um controle frágil sobre as facções distantes.
Durante o início dos anos 2000, grupos islâmicos nigerianos estavam se formando e desmantelando, sendo o Boko Haram um exemplo duradouro de um. Os debates entre os líderes islâmicos sobre como lidar com a vida e a educação pública sob um governo nigeriano ocidental (cristão) – criado arbitrariamente por uma potência colonial – foram proeminentes. Devido às pressões causadas pela ‘Guerra ao Terror’, “é curiosa e conspícua a ausência de qualquer troca de argumentos sobre a legitimidade do projeto de jihad global da Al-Qaeda. Daria para imaginar que tal conversa ou postura pública durante aquele período seria incontornável, a menos que “para evitar encadear quaisquer ligações orgânicas com a Al-Qaeda”.
A “Guerra ao Terror” dos Estados Unidos não conseguiu erradicar ou conter o Boko Haram e, embora apenas ocasionalmente se tornem grandes notícias, a organização é consistentemente retratada como horríveis abusadores de mulheres e crianças. Há partes dessa história, no entanto, que não foram contadas. Para retratar a multiplicidade com que Brigaglia define a condição humana, longe de “visões de mundo límpidas”, devemos falar sobre a Nigéria de várias maneiras. Ou, como diz a brilhante romancista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, devemos evitar “o perigo de uma única história” (“the danger of a single story”).
Série fotográfica de Fábio Teixeira retrata mulheres nigerianas que vivem em São Paulo.
Brasil
A história das mulheres nigerianas muçulmanas refugiadas no Brasil pode ser de beleza e poder, onde o protagonista não é a violência e o sofrimento causados pelo islamismo. Também pode ser sobre a responsabilidade do Ocidente de entender a complexidade da vida dessas mulheres, especialmente uma vida dentro de uma sociedade construída sob o domínio cristão. Nessa série do fotojornalista Fabio Teixeira, cerca de 20 nigerianas refugiadas em São Paulo se tornaram protagonistas vibrantes de suas próprias histórias. Elas fizeram suas próprias roupas com tecidos que conseguiram trabalhando para fábricas clandestinas de costura, que desaparecem na mesma rapidez com que surgem. Algumas delas trabalham limpando os manequins nos quais essas roupas são expostas. Todos esses empregos não oferecem segurança ou remuneração adequada, mas essas mulheres podem trazer dignidade para seus lares humildes em São Paulo e, em alguns casos, cuidar de crianças muito pequenas.
Tanto no Brasil quanto na Nigéria, a pobreza é o principal obstáculo entre os nigerianos muçulmanos e a vida digna e satisfatória que todos nós merecemos. Praticar sua religião em paz e sustentar sua família e entes queridos é um direito que deve ser concedido a todos, independentemente de raça, nacionalidade ou gênero. Embora possamos discutir como o governo nigeriano falhou em garantir esse direito a seus povos, não devemos esquecer o fracasso dos países ocidentais em tratar os nigerianos com o respeito que eles esperam para si mesmos. A região que hoje é a Nigéria tem sido explorada por centenas de anos, e a violência religiosa assumiu muitas formas, inclusive na forma de islamofobia em regiões cristãs.
Qual é a diferença entre resgatar e empoderar? Essas refugiadas foram resgatadas de regimes brutais? Sim. Mas elas ainda precisam encontrar um lugar neste mundo onde possam desfrutar da humanidade que todos nós temos o dever de defender. Se prometemos reprimir o terrorismo, prometemos apoiar as vítimas do terrorismo também. É isso que o Ocidente tem feito com as mulheres nigerianas muçulmanas?
De acordo com uma publicação de Anoosh Soltani na Universidade das Nações Unidas (United Nations University), “os meios de comunicação populares ocidentais perpetuam fortemente uma visão hegemônica das mulheres muçulmanas”. Ao fazer isso, essas mulheres são confinadas às categorias de oprimidas e/ou “incompatíveis com os valores e normas do mundo ocidental”. Na realidade, existem várias maneiras de praticar o Islã, a maioria das quais seria contra os valores ocidentais repreender.
O Islã chegou à região que hoje chamamos de Nigéria no século 11– algumas centenas de anos antes da colonização europeia. Para muitas mulheres, usar o hijab era uma declaração contra o domínio colonial. Como tal, cobrir a cabeça, para mulheres muçulmanas têm sido um símbolo feroz de pertencimento e resiliência. Na história do Islã, o Boko Haram é um fenômeno recente e distinto, nascido como resultado dos empurrões e puxões da história, de conflitos globais e da condição humana. Para evoluir como sociedade, mais de nós no Ocidente devemos mostrar respeito às mulheres nigerianas muçulmanas e fornecer a elas a dignidade humana básica a que todos nós temos direito.
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Mirna Wabi-Sabi é escritora, editora e diretora da Plataforma9.
Fabio Teixeira é fotojornalista e documentarista no Rio de Janeiro. Já trabalhou para The Guardian, Folha de São Paulo, Cruz Vermelha Internacional, Unicef, entre outros.
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