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  • Os Desabrigados da Humanidade

    Escrito por Mirna Wabi-Sabi Fotografado por Fabio Teixeira Série fotográfica: "Pessoas em situação de rua trabalham com o lixo reciclável e estão doentes", por Fabio Teixeira. 17 de maio, 2024. Zona Norte, Rio de Janeiro. Um filósofo escocês uma vez escreveu: “Uma corrente não é mais forte do que o seu elo mais fraco”. Antes disso, os bascos provavelmente já haviam cunhado o provérbio “geralmente o fio quebra onde é mais fino”. Esse sentimento continua bem vivo hoje e perdura durante séculos por uma razão simples: a humanidade tem fraquezas. Nesse alvorecer do terceiro milênio, após centenas de milhares de anos que seres humanos têm percorrido por esse belo planeta, é difícil olhar em volta e acreditar que temos utilizado as nossas habilidades para fortalecer os laços entre povos ou para engrossar o fio da nossa humanidade. Para percorrer as ruas do Rio de Janeiro, considerada por muitos uma das cidades mais bonitas do mundo, qualquer pessoa com um coração deve desviar muitas vezes o olhar de coisas que o encherão de desespero. Poucas coisas refletem mais o repetido fracasso da humanidade em evoluir do que a falta de moradia. Numa época em que a riqueza e a tecnologia disparam, nunca foi tão claro que a pobreza extrema não se deve à falta de recursos disponíveis. A população em situação de rua no Brasil tem crescido consistentemente nas últimas décadas, aproximando-se de 300 mil . No Rio, diz-se que há cerca de 8 mil pessoas vivendo nas ruas. Sempre aparecem manchetes com números impressionantes, “População em situação de rua cresce 211% na última década”, “Censo identifica 7.865 pessoas em situação de rua na cidade”, ‘ Novo programa do governo dá assistência  para pessoas em situação de rua’. Mas pesquisar além das manchetes e envolver-se pessoalmente com os assuntos revela uma história diferente. Em primeiro lugar, nem metade dos municípios brasileiros  contabiliza o número de pessoas que estão desabrigadas em suas comunidades. Isso significa que os números são alarmantemente imprecisos. Mesmo os órgãos dedicados a prestar serviços às populações desabrigadas do Rio de Janeiro, governamentais ou independentes, que estão localizados em áreas da cidade conhecidas por terem grandes concentrações delas trabalhando ou se estabelecendo, não têm ideia significativa dos números, localizações ou doenças de pessoas que eles se propuseram a servir. No entorno da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, é sabido que grupos de pessoas desabrigadas se reúnem, muitas vezes para separar resíduos domésticos e industriais. O fotojornalista Fabio Teixeira documentou alguns dos trabalhos que essas pessoas, que preferem permanecer anônimas, têm feito, bem como alguns dos não surpreendentes problemas de saúde que decorrem desse paradigma. Especificamente, observou-se que iniciativas informais de reciclagem, realizadas por pessoas sem acesso consistente à privacidade, água corrente e saneamento básico, geram a uma epidemia de infecções nos olhos. Ao perceberem que estão perdendo a visão, elas ajudam umas as outras com os recursos disponíveis. Os abrigos financiados pelo município não estão autorizados a falar diretamente com a imprensa. Toda comunicação deve passar pela assessoria de imprensa da prefeitura ou pela assessoria de imprensa do ministério da saúde. Esse escritório tem respostas prontas com números sobre o alcance do mais novo programa governamental voltado para a “ressocialização da população em situação de rua”. Esses programas  envolvem o envio de profissionais de enfermagem, psicologia e assistência social para as “ruas”. Essa é a abordagem onde se acredita que, se a mente e o corpo dessas pessoas forem tratados, naturalmente, elas conseguirão se reinserir na sociedade, conseguindo emprego e moradia. A realidade, porém, mostrou que estar na rua é o que causa a grande maioria das doenças psicológicas e físicas na comunidade, e não o contrário. Portanto, a única forma de resolver com sucesso estes problemas de saúde é, em primeiro lugar, fornecer habitação. “As principais questões de saúde diagnosticadas pelas equipes de Consultório na Rua são as infecções sexualmente transmissíveis como sífilis, HIV, hepatites virais, questões relacionadas ao sofrimento em saúde mental e ao uso de drogas, hipertensão arterial, tuberculose, feridas crônicas, entre outras. E as principais situações que interferem diretamente nas condições de saúde dessas pessoas são a insegurança alimentar, dificuldade de acesso a água potável, privação do sono, exposição ao calor, ao frio ou a chuva.” (Ascom) Por “interferem diretamente” eles querem dizer “causam”. O fato de não ter casa é a principal causa desses problemas de saúde, no entanto, a solução permanece: tratar os sintomas à medida que eles são encontrados nas ruas. As iniciativas financiadas de forma independente, as ONGs, estão ainda menos equipadas para abordar a raiz do problema. Uma organização dedicada à “reinserção social de pessoas em situação de rua” no centro da cidade do Rio descreveu sua maior conquista como: existir há 8 anos e uma vez ter ganhado um prêmio. Dizem que o seu maior obstáculo é a “captação de recursos”, em vez do que eles precisam de dinheiro para alcançar. Esses desastres de comunicação podem ser indicativos de uma verdade horrível, não sobre as pessoas desabrigadas, mas sobre os abrigados. Nossas cidades têm seres humanos que estão desprotegidos pela humanidade. A Secretaria de Assistência Social  do Rio de Janeiro precisa especificar que ela não está legalmente autorizada a se envolver na “remoção” de uma pessoa sem-teto, e isso diz muito sobre os tipos de solicitações que ela recebe do público em geral. Enquanto grande parte da população alojada aborde a falta de moradia como se fosse uma questão de gestão de lixo, aqueles que trabalham na área de serviço social demonstram uma compreensão superficial da realidade que tantos brasileiros em extrema pobreza enfrentam. Abordar o atendimento a pessoas desabrigadas como um projeto de “ressocialização” implica que o que elas precisam é aprender certos comportamentos para se reinserirem à sociedade. Na realidade, os desabrigados nunca se retiraram da sociedade, eles são o elo mais vulnerável dela. As populações desabrigadas e abrigadas não apenas compartilham espaços nas cidades, mas estão intrinsecamente ligadas através da forma como a nossa sociedade tem funcionado. A inacessibilidade da habitação está diretamente ligada ao setor imobiliário e a todos os que com ela se envolvem para se alojar. Quanto mais a nossa sociedade encarar lares como uma oportunidade de investimento financeiro, em oposição a uma necessidade humana básica nos dias de hoje, mais crescerá a população sem habitação. A única razão pela qual isso não é suficiente para provocar uma mudança nesse sistema é porque nós, a população abrigada, nos convencemos de que os desabrigados são um problema causado por eles mesmos e pelos seus comportamentos e escolhas de vida. Após uma autoinspeção mais aprofundada, grande parte da população alojada perceberia quantos momentos das nossas vidas são passados ​​a trabalhar ou a pensar em trabalhar para manter um teto sobre as nossas cabeças, com exceção daqueles que nasceram numa riqueza notável. Embora nós como indivíduos possamos não ser capazes de resolver sozinhos a questão da habitação nas nossas comunidades, a nossa sociedade como um todo, os seus valores e os seus recursos, certamente é capaz de o fazer. Isso exigirá uma mudança de perspectiva de longo prazo e em grande escala. Entretanto, o mínimo que podemos fazer como indivíduos hoje é separar resíduos orgânicos  para compostagem e lavar os nossos resíduos domésticos inorgânicos para prevenir infecções nas pessoas que nos prestam o serviço informal de reciclagem. Os elos mais fracos nessa cadeia de povos da humanidade são talvez os valores meritocráticos e individualistas das populações abrigadas no capitalismo tardio – um elo que lava as mãos de quaisquer laços humanos com a população desabrigada. Da próxima vez que nos perguntarmos, a população em situação de rua “ é responsabilidade de quem? ” A resposta é: de todo mundo. Só então o fio tênue da nossa humanidade se engrossará.

  • Comerciante de petróleo, Gunvor, se declara culpado de uma década de corrupção na Região Amazônica

    Há dinheiro e tecnologia suficientes para alcançar os objetivos climáticos dos nossos sonhos com dignidade. Por Mirna Wabi-Sabi A Gunvor, um dos maiores comerciantes de petróleo bruto do mundo, pagará mais de 600 milhões de dólares em multas pelo suborno de funcionários do governo no Equador. Foram utilizadas empresas de fachada e intermediários para pagar esses funcionários, que por sua vez garantiram contratos de compra de petróleo. De acordo com o Grupo de Pesquisa Stand.earth, tais esquemas são responsáveis ​​por derramamentos de petróleo devastadores que destroem áreas povoadas e ecologicamente frágeis da Floresta Amazônica, e por manter países latino-americanos dependentes de combustíveis fósseis e reféns de dívidas monumentais. Os graves derramamentos de petróleo causados ​​por rupturas em oleodutos malconservados têm efeitos mortais a longo prazo para as comunidades indígenas próximas, bem como para a fauna e a flora locais. Segundo a Public Eye, uma organização dedicada a denunciar o impacto que as empresas e instituições suíças têm “em países mais pobres”, a “taxa de câncer nessas regiões petrolíferas foi a mais alta do mundo” nos anos em que Gunvor subornou funcionários públicos. A exploração petrolífera da região começou anos antes com a Chevron, cujos locais poluídos foram denunciados por Roger Waters enquanto fazia campanha contra Bolsonaro e a sua abordagem catastrófica ao extrativismo na Floresta Amazônica. Após a transferência das operações da Chevron para a Petroecuador, a nacionalização não proporcionou qualquer proteção à região contra novas catástrofes nas mãos da Gunvor. O Equador, que já estava financeiramente vulnerável após a exploração implacável por empresas estrangeiras e uma tentativa falhada de fazer a Chevron pagar pelos danos que tinha causado, viu-se mais uma vez subjugado pelo capital ocidental. O que os comerciantes petrolíferos multinacionais fizeram foi utilizar a sua própria linha de crédito para emprestar dinheiro à empresa petrolífera nacionalizada do Equador, a taxas de juros predatórias, e, ainda por cima, subornar funcionários para que esses contratos fossem assinados. Essas dívidas de bilhões de dólares com taxas de juros desfavoráveis ​​incluem a necessidade de fornecer petróleo bruto ao comerciante. Ou seja, não só a instituição equatoriana é mantida refém da própria dívida, como também fica dependente da extração de petróleo e da exploração de seus recursos naturais por anos. Em contradição com a ideologia capitalista que justifica essas abordagens extrativistas de recursos naturais em favor do lucro e da estabilização da economia global, não houve competição entre os comerciantes. Juntos, eles “monopolizaram o mercado do petróleo bruto amazônico”. Como tal, em 2009, a Gunvor comprou um dos seus comerciantes irmãos, Castor Petroleum, cujo vice-presidente acabou sendo localizado pelo FBI e implicado no processo judicial que levou à multa de 662 milhões de dólares. A Public Eye descreveu apropriadamente esse desastre como um “círculo vicioso que impacta negativamente as necessidades da população e do meio ambiente” em favor da ruína financeira perpétua, da aniquilação da natureza, e da subjugação dos sul-americanos às instituições ocidentais e aos seus lucros. Essa não é a primeira vez que a Gunvor é acusada de atividade criminosa. Em 2019, ela pagou quase 100 milhões em um caso de suborno de funcionários do governo na Costa do Marfim e no Congo – um caso que a Transparency International usa como exemplo de crimes corporativos ocidentais em “países aparentemente livres de corrupção”. Em 2017, a Gunvor foi acusada de contrabandear petróleo russo através da Bielorrússia para evitar impostos. E em 2010, telegramas da Embaixada dos EUA do WikiLeaks a colocaram como uma das “fontes de riqueza não declaradas de Putin”. Agora que houve maior repercussão, meros 662 milhões para uma empresa que lucra mais de 1 bilhão por ano, com uma receita superior a 100 bilhões, e que continuará a operar normalmente – para onde irá esse dinheiro da multa? Será investido na reparação dos danos causados ​​à Amazônia e à sua população? Logo após o escândalo de suborno ter vindo à tona, em 2021, o CEO da Gunvor, Torbjörn Törnqvist, disse à Reuters que planeava “expandir” as suas operações para a Rússia. Isso foi pouco antes da invasão da Ucrânia, mas não deve ter sido uma surpresa, uma vez que Törnqvist já tinha comprado a parte da empresa do seu parceiro russo em 2014 para evitar sanções devido à anexação da Crimeia pela Rússia. Hoje, ele afirma estar numa “jornada de sustentabilidade”, a partir de 2023 rastreando as “emissões da cadeia de abastecimento” da Gunvor com a ajuda de uma empresa terceirizada dedicada a alcançar os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU para bancos e comerciantes multinacionais. Não é de surpreender que em nenhum lugar dessa jornada de sustentabilidade haja reparação de qualquer dano real causado à Floresta Amazônica e aos seus povos. Existe apenas uma declaração corporativa sobre a coleção vaga de dados sobre as emissões de CO2, admitindo que ainda não se recolhem dados sobre emissões de metano ou qualquer outro gás de efeito estufa. Empresas que continuam a expandir mesmo depois de denunciadas como criminosas, como a Gunvor, alcançam a impunidade ao se estabelecerem como indispensáveis. No entanto, eles são dispensáveis. Há dinheiro e tecnologia suficientes para alcançar os objetivos climáticos dos nossos sonhos com dignidade. O Grupo Gunvor agora anuncia que, pela primeira vez, está investindo na geração de energia como uma alternativa à dependência dos combustíveis fósseis que eles endossaram criminalmente e da qual lucraram durante décadas. Essa é uma decisão orientada para o lucro, liderada por mudanças inevitáveis ​​no mercado, mudanças que eles passaram décadas tentando impedir ou atrasar a todo o custo. Essa “jornada” é melhor do que nada? Quais garantias existem de que essas declarações corporativas não sejam apenas mais um esquema que prolongará a vida de um empreendimento destrutivo e ilegítimo? _____ Mirna Wabi-Sabi é editora chefe da Plataforma9.

  • Edição de textos com sinais de Fala Pressionada

    Fala Pressionada (ou discurso pressionado) é um termo usado na psiquiatria para descrever um sintoma de um episódio maníaco de Transtorno Bipolar, Autismo, TDAH, TPB e mais. É quando uma pessoa fala com senso de urgência, sem pausas e muitas vezes de forma incoerente. Muitas pessoas já testemunharam ou experienciaram isso, mas não sabem que possui um termo clínico. E o que torna mais difícil a identificação é que esse fenômeno não é exclusivo de pessoas diagnosticadas com uma dessas condições psiquiátricas. Qualquer pessoa sob uma mistura de estímulos estressantes pode apresentar esse sintoma, portanto não é necessariamente uma indicação de bipolaridade ou autismo. Estar sob os holofotes, por exemplo, pode provocar alteração de tom na maioria das pessoas, muitas vezes lembrando uma fala pressionada. Saber, no entanto, que essa pode ser uma condição médica informa positivamente as nossas reações a ela. Como editora, muitas vezes vejo sinais de discurso pressionado na escrita das pessoas. Há um certo nível de desespero para transmitir um ponto de vista, mas o ponto tem muitas camadas e os conceitos são empilhados uns sobre os outros, sem conexões claras entre eles. Os sinais clássicos são frases longas com esses imensos conceitos listados um após o outro. Os parágrafos são intermináveis e não está claro onde a história começou e para onde vai. Todas as pessoas escritoras são suscetíveis a isso, mas o sintoma que se destaca como psiquiatricamente maníaco é a urgência que emana do texto – como se o texto que está sendo escrito e lido devesse, por si só, mudar significativamente principais aspectos do mundo. A urgência por trás da necessidade de que algo mude, ou de que algo seja interrompido, é naturalmente expressa através da fala e, claro, através da escrita como forma de fala. Como podemos distinguir entre um estilo de escrita e um sintoma clínico? Essa distinção é útil para aqueles cujo trabalho é ajudar um escritor a tornar o seu texto mais eficaz – pessoas editoras. Mas também é útil para qualquer um que deseje aprimorar suas habilidades de comunicação. Se o leitor não consegue entender o que está sendo dito em um texto, não é uma escrita eficaz. Como tal, a primeira preocupação é compreender o público. Pessoas com autismo notoriamente encontram dificuldade nisso, mas todas as pessoas devem desenvolver essa habilidade, de uma forma ou de outra, para se comunicarem. Nos episódios maníacos, a comunicação é particularmente prejudicada, em grande parte devido à incapacidade de ler a audiência, mas também devido a “delírios de grandeza”, onde a audiência é vista como inadequada. Há uma linha tênue entre acreditar em você mesmo, ou que seu trabalho como escritora faz uma diferença real no mundo, e um senso patológico de autoestima. Há uma linha tênue entre saber que você pode apresentar novas ideias ao seu leitor, e acreditar que ele é ignorante. Independentemente de onde essa linha seja traçada, responder com reasseguramento e gentileza é crucial ao abordar pessoas que lidam com uma condição psiquiátrica. Isso não significa ceder ou ignorar os problemas. Significa tentar captar a mensagem que estão tentando transmitir e ajudá-los a criar uma estrutura eficaz para apresentar essa mensagem. No processo de estruturação do pensamento, a pessoa editora tem a oportunidade de ajudar alguém que está passando por um episódio maníaco a compreender e se apropriar de seus sentimentos, antes de divulgá-los publicamente. Afinal, é um sentimento que provoca a necessidade urgente de escrever sobre um assunto. Mas, às vezes, o sentimento é tão forte que corremos e cortamos atalhos na narrativa, tornando a estória ininteligível. E quando isso acontece, um texto torna-se ineficaz, causando frustração ou uma bola de neve de emoções negativas. O primeiro passo para garantir uma estrutura narrativa eficaz é um começo, meio e fim. O começo: Onde estamos? O que estamos fazendo? Por que o leitor deveria se importar? No início, situamos o público no o quê. O que está acontecendo no mundo agora que justifica a escrita e a leitura de centenas de palavras? Talvez haja guerra na Ásia Ocidental e a islamofobia seja descarada na cobertura noticiosa tradicional. Alguma estrela pop começou a namorar alguém que traiu a ex-namorada. Uma espécie rara de ave foi observada em um habitat incomum. O artigo pode ser sobre qualquer coisa, então é melhor dizer logo de cara qual é a coisa. Começar um artigo introduzindo um 'o quê' que é muito vago ou amplo como conceito é ineficaz porque os leitores não saberão a resposta para "e daí?", e não saberão por que deveriam se preocupar com o que estão prestes a ler. Pessoas leitoras online têm períodos curtos de atenção. Elas precisam ser lembradas de por que deveriam se importar com frequência. Nesse sentido, escrever sobre a vida, a humanidade, o mundo em geral em um post de blog é escrever sobre nada, na verdade. No que você vai focar sobre a vida, a humanidade ou o mundo, nesse caso específico, é o que deveria ser dito no início. O meio: Evite dizer às pessoas o que é ou não é. Mostre as evidências e deixe-as falar por si. O meio é onde listamos os argumentos e evidências sobre o quê e por que devemos nos importar. É também uma oportunidade para definir termos e, por vezes, conceitos amplos podem ser empregados com o objetivo final de servir como argumento de apoio ao ponto principal do texto. Por exemplo, defina o termo islamofobia e mostre evidências disso na mídia, junto às fontes. Mostre e analise as evidências sobre a vida amorosa da estrela pop. Descreva o habitat em que a ave rara foi encontrada, explique o que significa a sua presença ali e de acordo com quem. Ou seja, o meio é onde você mostra os recibos, mesmo que todos sejam baseados na sua experiência pessoal. Encontrar ou elaborar evidências para o ponto principal que estamos tentando defender é o maior desafio da escrita de não-ficção. Seguido pelo desafio de tecer um fio ligando todas essas evidências em direção a um propósito final. Uma narrativa não-ficcional é essencialmente isso – um conjunto coerente de evidências que leva à afirmação de uma tese. O fim: E agora? Suponha que todas as evidências que apoiam o ponto estejam apresentadas e que a tese tenha sido afirmada. Ao concluir, a pessoa escritora pode apresentar ao público o que espera que o leitor faça com todas as informações que acabou de ler. Tudo o que a audiência obtém ao ler um texto não pode ser previsto, mas um senso de propósito acessível por parte do escritor ainda pode ser compartilhado. Porque se não conseguimos verbalizar qual foi o motivo de escrever o texto, qual foi o motivo de lê-lo? Às vezes, no processo de criação da estrutura, percebemos que estamos fazendo suposições das quais não temos evidências. Ou estamos fazendo suposições sobre o nosso público, como esperar que ele se identifique instintivamente com algo com o qual ele não necessariamente se identifica. Algumas coisas não são óbvias, e é por isso que sentimos necessidade de falar e escrever em primeiro lugar. Pessoas editoras não são psiquiatras ou terapeutas. Como com qualquer outro indivíduo, só podemos fazer o que está ao nosso alcance. E valorizar vozes neurodivergentes está ao nosso alcance. Se não nos esforçarmos para perceber esse valor, estaremos contribuindo para o silenciamento sistemático de grande parte da população. Diz-se que uma em cada oito pessoas lida com uma condição psicológica prejudicial, sendo a fala pressionada não apenas um sintoma identificável, mas também um sintoma de transtornos de humor com alto risco de suicídio. É possível ser honesto e construtivo com feedback sem alienar ainda mais as pessoas neurodivergentes. Ao fazer isso, novas e inesperadas ideias sobre como aprimorar a comunicação podem se tornar um recurso valioso para todas as pessoas que pretendem comunicar ideias através da escrita. ___ Mirna Wabi-Sabi

  • “This is not a drill” de Roger Waters chega ao Brasil invocando Resistência

    Dada a geopolítica atual, está claro que ideologias genocidas não estão em declínio, e perduram pela história. Por isso, a resistência continua imprescindível, e é essa a mensagem central do show “This is Not a Drill” de Roger Waters, no Brasil. O primeiro show da tour ‘This is Not a Drill’ de Roger Waters aconteceu em um auditório de Pittsburgh, dia 6 de julho de 2022, na Pensilvâniana. Dia 24 de outubro de 2023, a tour foi estreada no Brasil, em Brasília, reconfigurada para estádios. A set list, a mensagem política e a identidade visual é a mesma, mas estar ao céu aberto garante uma experiência renovada. Não há mais a configuração do palco de auditório de 360 graus em formato de cruz, mas foi possível ver a lua durante ‘Dark Side of the Moon’, realçada por lasers espetaculares. Entre o primeiro show da tour e o primeiro show da tour no Brasil, Roger Waters lidou com diversos ataques políticos, protestos pedindo pelo cancelamento de seus shows — especialmente na Alemanha — documentários acusando-o de antissemitismo, e escrutínio de críticos e audiências por seus posicionamentos políticos. Em resposta, Waters expressou genuína decepção, questionando por que agora se tornou alvo desse escrutínio por uma mensagem política que ele dissemina já há meio século. Desde o fim dos anos 60, a preocupação com uma guerra nuclear, com líderes mundiais desrespeitando direitos humanos, e a brutalidade da ganância da elite global tem sido centrais não só na vida, mas na arte de Waters. É inspirador e honrável ver um artista como ele usar seu talento e fama para fazer o que ele pode para realizar mudanças positivas e necessárias no mundo. Durante toda a sua carreira, é possível observar uma estratégia de comunicação artística e política que utiliza personagens e narrativas para transmitir uma mensagem. Roger, na verdade, é mais que um músico, ele é um contador de estórias. Como contador de estórias, ele idealiza personagens e os coloca em narrativas que expressam o pior cenário imaginável. Ao encenar explosões, tiroteios, mortes, crimes de guerra, líderes fascistas e capitalistas inconsequentes, ele não só apresenta esse pior cenário, como também mostra o quão próximo dele realmente estamos. É um balde de água fria que te traz para a realidade e faz enxergar um futuro assustadoramente próximo — o qual precisamos impedir. O personagem do líder fascista que Waters encenou antes da tour chegar no Brasil era performado acompanhado de uma metralhadora e soldados obedientes. Em Brasília, ele foi apresentado em uma cadeira de rodas, vestindo uma camisa de força, acompanhado por auxiliares de hospital. Ele enlouqueceu de vez, e de forma alguma deve ser ouvido. Há anos, esse personagem representa o poder político, e como ele é centralizado em indivíduos completamente doentes e perturbados. Resistência a eles é imprescindível, e Waters é explícito em relação a isso. Resistência, para Roger, pode acontecer de diversas formas. Resistir é um processo material, como pessoas indígenas e palestinas lutando para retomar controle de suas terras. E também é um processo social, através do diálogo e do apoio mútuo. Quando ele invocou direitos indígenas, palestinos, reprodutivos e trans, grande parte da audiência se emocionou e celebrou. Ele faz uma vertente ampla da população brasileira, que luta por esses direitos regularmente, se sentir reconhecida e apoiada. Mas nem todos compartilham essa visão. Pode-se observar o incômodo de alguns indivíduos com a crítica ao capitalismo. Eu ouvi pelo menos uma vez, “olha lá o comunista vindo em show de capitalista. Aposto que o Roger Waters tá fazendo muita grana”. Fora que o Roger inquestionavelmente endossou o Lula no palco. É possível que essa chamada para resistir ao capitalismo seja difícil de absorver no Brasil. Porque a concepção de capitalismo, num país que lidou com uma ditadura que utilizou “militar” no lugar de “capitalista”, interpreta o Capital como sinônimo de Renda. Não é preciso convocar jargões da teoria comunista para analisar a falha na fusão desses conceitos. O Roger Waters trabalha e produz — arte. Se todas as pessoas trabalhadoras fossem propriamente renumeraras por seu trabalho no sistema capitalista, não haveria necessidade de resisti-lo. Mas não é essa a realidade, e nunca foi. O Waters é sábio o suficiente para reconhecer que só porque ele conseguiu construir uma carreira que o remunera generosamente pelo seu trabalho, não quer dizer que essa seja a realidade para todo o mundo ou que o sistema funciona para a humanidade. Roger Waters no Brasil É difícil compreender como a visão do Roger Waters para um mundo melhor não é unânime. Porém, resistência contra a guerra, a ganância, o fascismo, o racismo e as demais ideologias que visam erradicar a diversidade humana só pode ser unânime em um mundo onde essas ideologias nocivas não existem mais ou estão em declínio. Se todos nós concordássemos com o fato de que essas violências deveriam acabar, não resistiríamos, construiríamos juntos um mundo novo. Dada a geopolítica atual, está claro que ideologias genocidas não estão em declínio, e perduram pela história. Por isso, a resistência continua imprescindível, e é essa a mensagem central do show “This is Not a Drill” de Roger Waters. Podemos diferir ou até discordar sobre quais ferramentas empregar nessa resistência, mas pelo menos participar dessa conversa ele demanda de sua audiência. Sua arte transcende a música. Ela é folclore, teatro, amizade, ativismo, e claro — resistência. Mas a música não deixa de ser central. Como eu disse ano passado, na resenha sobre o primeiro show dessa tour em Pittsburgh, “os solos de guitarra e cantoras de back-up gratificam qualquer fã obstinado do Pink Floyd e os inspira a cantar junto. Enquanto os fluxos dinâmicos da set list, sem mencionar os fantásticos solos de saxofone, fazem qualquer pessoa interessada em música dançar.” E isso continua a ser verdade. Algumas das músicas mais adoradas de todos os tempos são tocadas de forma autêntica e fiel, criando uma experiência imperdível para pelo menos três gerações de fãs. _______ Por Mirna Wabi-Sabi

  • Argentina: O falso anarquismo de Javier Milei e seu apoio estrondoso a Israel

    Milei está ansioso para apoiar a invasão de Israel em Gaza e para seguir os passos de Trump na mudança da embaixada para Jerusalém. Mostrar como o uso do termo Anarquismo por Javier Milei é absurdo não exige muito esforço, mas o absurdo é altamente elegível em nossa era. Para um anarquista concorrer à presidência, ele estaria buscando um cargo que não acredita que deveria existir, e estaria ideologicamente comprometido em não fazer o trabalho. À medida que Javier Milei faz campanha e vence a sua candidatura na Argentina, ele está, no entanto, empenhado em fazer um trabalho como chefe de Estado, apesar de se autodenominar anarquista. Seu compromisso é instaurar o mais livre dos mercados capitalistas e manter o governo o menor possível – sem que o seu próprio emprego deixe de existir. Isso significa acabar com regulamentos e ministérios, e exaltar stocks em dólares americanos e as forças armadas – para proteger bens privados. Como uma relação inquebrável com os EUA e Israel, que são as suas primeiras viagens internacionais confirmadas desde as eleições, pode ajudá-lo a alcançar esses objetivos? A estratégia de Milei para gerar riqueza e conter a inflação é privatizar tudo, e isso já sacudiu a bolsa de valores nos EUA. Segundo a Reuters, o seu plano de vender a YPF, a empresa petrolífera nacional, já fez com que suas ações subissem 40% desde a vitória eleitoral. “A YPF é a maior empresa petrolífera da Argentina e supervisiona o desenvolvimento da Vaca Muerta, a segunda maior reserva de gás de xisto do mundo e a quarta maior reserva de óleo de xisto.” A dolarização da Argentina tornará esse tipo de venda ainda mais conveniente para os estrangeiros. Ao mesmo tempo, a privatização desses bens públicos estabilizará a dolarização. Pelo menos é nisso que Milei está apostando, e ele precisa que funcione por vários motivos. Um deles é que a YPF está sob escrutínio judicial pela forma como foi nacionalizada em primeiro lugar. Uma sentença de 16 bilhões de um tribunal dos EUA paira sobre a cabeça da empresa devido à “apreensão” de ações de investidores minoritários em 2012. Outra razão pela qual Milei precisa que esse plano funcione é que a Argentina é o país que mais deve dinheiro ao FMI no mundo. Se investimento do FMI, cujo objetivo é ajudar “países de baixo rendimento” a permanecerem ativos no mercado capitalista global, fracassou, será que entrar de cabeça no mercado dolarizado e privatizado funcionará como solução? Quando se trata de conflitos na Ásia Ocidental, a discussão sobre o petróleo é um clichê ultrapassado. Mas se há fumaça, temos que pelo menos considerar a possibilidade de que também há fogo. A escalada dos ataques à Palestina levantou preocupações sobre os preços e o fornecimento global de petróleo. Se o Irã, “o quarto maior fornecedor de petróleo da OPEP”, se envolver (ainda mais) nesse conflito, e, digamos, os EUA forem encorajados a decretar sanções, seria pertinente começar a conceber um plano para lidar com a diminuição do volume de petróleo que está circulando. A revista Time publicou um artigo no final de outubro argumentando que as sanções ao petróleo iraniano são a chave para a “paz” no “Oriente Médio”, estimando que as vendas de petróleo constituem 70% das receitas do governo do Irã. Enquanto isso, Israel tem debatido o potencial de extração de quantidades significativas de xisto betuminoso há algum tempo, uma vez que se acredita que 15% do território israelense esteja em leitos desse xisto. Talvez não seja uma coincidência que o novo presidente da Argentina queira reforçar a sua relação com Israel enquanto tenta livrar-se da YPF, que já foi descrita como “a jogada de xisto mais atraente fora dos EUA”. A relação política e econômica entre a Argentina e Israel não começou com Milei. Perón já tentou conquistar os EUA através de acordos com Israel. Assim, ele acreditou que “remover[ia] o estigma” de que a Argentina tinha se tornado um porto seguro para nazistas após a Segunda Guerra Mundial, enquanto também abriga a maior população judaica da América Latina. Desde então, Israel forneceu equipamento militar à Argentina antes e durante a Guerra das Malvinas contra a Grã-Bretanha, o que se argumenta ser devido à animosidade extrema de Menachem Begin com o mandato britânico da Palestina. Hoje, Milei está ansioso para apoiar a invasão de Israel em Gaza e para seguir os passos de Trump na mudança da embaixada para Jerusalém. Mas mesmo antes da sua vitória, a empresa nacional de água de Israel, Mekorot, já tinha recebido “influência significativa” sobre como os recursos hídricos são atribuídos em várias províncias da Argentina. Depois de ver como essa empresa abordou o abastecimento de água à Palestina, muitos argentinos estão indignados não apenas com a presença dessa empresa no seu próprio país, mas também com o que ela tem feito no exterior. No Brasil, quando Bolsonaro abanou uma bandeira israelense num protesto, os representantes da Confederação Israelita do Brasil (Conib) foram rápidos a rejeitá-la como representativa da posição política da diáspora judaica no país em geral. Não está claro se o mesmo pode ser dito sobre a população judaica argentina. Mas uma coisa é certa: o fanatismo de Milei com Israel não tem nada a ver com o anarquismo, e tudo a ver com o seu amor implacável pelo capitalismo norte-americano. Me parece que ele instrumentaliza a religião para atingir objetivos econômicos, e isso muito provavelmente será às custas de argentinos de todas as religiões, enquanto ele agita sua motosserra da austeridade. As ideologias anarquistas e libertárias visam combater o controle governamental sobre a sociedade, mas o anarquismo nunca significou que esse controle caísse nas mãos de uma instituição ainda mais problemática – o mercado global de ações. É por isso que, historicamente, o anarquismo se desenvolveu em resposta à direção insustentável que a industrialização capitalista tomava no século XIX (em direção à pobreza generalizada). Ao se inspirar no fato de que várias civilizações indígenas prosperaram sem o capitalismo e o Estado, ficou claro para os anarquistas que outro mundo é possível. Acelerar na direção de um capitalismo industrial sem regulamentação é bastante contrário aos princípios do anarquismo, porque apenas agrava a questão da desigualdade econômica. Inegavelmente, a Argentina está numa situação financeira difícil e o seu novo presidente planeja resolvê-la com uma versão ainda mais extrema do sistema financeiro que não deu certo até agora. Como uma personalidade televisiva com ideias econômicas explosivas, Milei conquistou os corações de um eleitorado que está ansioso para preservar o status quo capitalista. Talvez essas ideias não sejam tão explosivas ou inovadoras como ele as faz parecer, são apenas uma tentativa desesperada de proteger um sistema de longa data que não tem dado sinais de funcionar. ____ Escrito por Mirna Wabi-Sabi, fundadora e editora-chefe da Plataforma9. Fotografado por Alisdare Hickson, sob a licença Attribution-ShareAlike (CC BY-SA 2.0)

  • O Capitalismo na Era Digital dos Modelos de Linguagem

    "É difícil aceitar que nos esforçamos para ‘ganhar a vida’ num mercado global que é um Casino. Em vez disso, é fácil abraçar ideias de gurus de negócios e dicas financeiras genéricas que não abordam a questão fundamental de como alcançar uma existência autêntica e gratificante nesse mundo." Por Mirna Wabi-Sabi Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique Brasil Empresas sempre procuram estar na vanguarda do marketing digital e, a cada dia, uma nova estratégia de negócio é lançada. A sobrevivência do capitalismo depende da crença de que os nossos empreendimentos serão bem-sucedidos se dedicarmos muitas horas e aprendermos a utilizar todas essas ferramentas digitais, que estão em constante mudança e multiplicação. O Search Engine Optimization (SEO) tem sido a ferramenta queridinha do marketing digital nos últimos anos, até ser, desde 2019, proverbialmente substituído pelo BERT, um modelo de linguagem do Google que depende menos de palavras-chave e termos, interpretando mais o contexto. Mas quando uma ferramenta é democratizada (ou seja, tornada amplamente acessível), ela, em essência, deixa de ser eficaz. O mercado capitalista, assim como as pesquisas no Google, precisa da competição por lugares limitados no topo. Essa corrida para aparecer no topo da 1ª página de uma busca no google é interessante, pois ou você precisa se inserir em uma tendência pesquisável, ou fabricar uma. De qualquer forma, não é um processo científico fiável onde os contributos garantem o resultado, embora o mito da meritocracia capitalista se baseie na crença de que seja. Na realidade, o sucesso de um empreendimento comercial é uma aposta que requer muito investimento inicial, antes de haver (e se houver) algum retorno. No pôquer, a pessoa jogadora precisa começar colocando dinheiro no jogo. Depois disso, há um cálculo cuidadoso das probabilidades de vitória e como lidar com essas probabilidades dependendo do adversário e da equidade do jogador. Só porque existe cálculo de probabilidade não significa que não seja uma aposta, e o mesmo vale para o marketing digital e o sucesso de um empreendimento capitalista. Quanto mais dinheiro o empreendimento tiver para entrar no jogo, maior será a probabilidade de os cálculos eventualmente darem lucro e também da sorte acontecer. É difícil aceitar que nos esforçamos para ‘ganhar a vida’ num mercado global que é um Casino. Em vez disso, é fácil abraçar ideias de gurus de negócios e dicas financeiras genéricas que não abordam a questão fundamental de como alcançar uma existência autêntica e gratificante nesse mundo. Quando acreditamos que existe uma fórmula e que o sucesso é todo mérito pessoal, é mais provável que continuemos tentando reproduzir o que vimos funcionar para os outros, e isso está dentro da categoria de seguir tendências. Pesquise no Google como ser relevante no Google (Modelos de Linguagem) O modelo BERT é aquele que prevê o final da sua frase no Gmail. Se você digitar “Como vo”, a tecla ‘tab’ adicionará “cê está?”, e “Espero”, ‘tab’, “que sim”, etc. Os resultados dessa função de preenchimento automático de texto não são apenas previsíveis e pouco originais, mas também nem sempre são factuais. As pesquisas do Google, que utilizam esse modelo, interpretam o contexto e também prevêem e geram conteúdo com base em enormes conjuntos de dados. Para ter uma classificação elevada em uma pesquisa com esse método, precisamos ser um acompanhamento previsível de um termo chave ou pergunta feita no Google. O que acabamos obtendo é uma grande quantidade de conteúdo e empreendimentos comerciais que aproveitam uma onda de pesquisas populares – todos eles competindo por um lugar de destaque. Aqui você encontrará muito clickbait e, em geral, produtos e conteúdos pouco originais, que seguem uma fórmula de marketing digital para assuntos que já provaram ser populares. Um exemplo disso pode ser visto na dica da “Amazing Money Marketer” Sherri Norris, sobre como ganhar 90 mil vendendo cadernos através do Amazon KDP. Nesse reel, Sherri mostra como um caderno preto vendeu 6 mil unidades por cerca de 15 dólares, e, com uma “matemática simples”, podemos ver que a pessoa faturou (6000x15) 90k. Em seguida, ela explica como criar um PDF no Canva, carregá-lo no Amazon KDP e acumular riqueza. Seu cálculo não leva em conta a parcela considerável dos lucros que vai para a Amazon, para impressão, envio e manuseio. Acima de tudo, não leva em conta o fato de que, sem um investimento inicial considerável em marketing, você simplesmente não venderá um único exemplar, enterrado sob um mercado hipersaturado de cadernos na Amazon. Isso foi apontado por pessoas nos comentários, que tentaram e falharam, e a solução apresentada a eles foi “você tem que alterar sua estratégia de SEO”, ou “Faça uma pesquisa na internet sobre como comercializar livros de baixo conteúdo do KDP”. Para empreendimentos de acompanhamento de tendências que seguem essa lógica, isso significa que não existe uma ciência exata para se destacar na multidão ou permanecer relevante no longo prazo. Mais importante ainda, essa lógica não aborda a realidade de que, para ganhar dinheiro, precisamos já de ter tempo e dinheiro. Nas próprias palavras de Sherri Norris, em seu aviso de isenção de responsabilidade em letras miúdas em seu “site”: “Conforme estipulado por lei, não podemos e não oferecemos nenhuma garantia sobre sua capacidade de obter resultados ou ganhar dinheiro com nossos cursos, eventos, programa de afiliados ou treinamentos em vídeo gratuitos. A pessoa comum que compra qualquer informação sobre “como fazer” [“how to”] obtém pouco ou nenhum resultado.” (ênfase adicionada.) Existem várias contas que se descrevem como “ajudando pessoas comuns a ganhar dinheiro online” ou “em casa”, muitas com o mesmo texto de isenção de responsabilidade. Esses gurus da renda passiva estão espalhados pela Internet, apenas os de maior destaque enfrentam consequências jurídicas. A tendência Stanley Quencher Tumbler No Brasil, a Croácia só é pesquisada no Google no contexto de jogos de futebol. Otimizar as pesquisas de uma publicação sobre um terremoto naquela região implicaria reestruturá-la como clickbait – ou, de alguma forma, fabricar demanda para o tema de terremotos nos Balcãs. Quando se trata de produto, ser o único do gênero só é uma vantagem quando um número suficiente de pessoas o conhece e o procura. Não há maneira mais segura de estar no topo de uma pesquisa no Google do que ter milhares de pessoas pesquisando algo que só você fornece. A questão é como levar as pessoas a fazer isso. A mania do Stanley Quencher Tumbler é um exemplo extremo de como fabricar demanda por um produto que apenas uma empresa oferece. Embora o conceito de garrafa térmica não seja exclusivo da Stanley, eles conseguiram aumentar o desejo do público por uma versão que só eles fornecem. O resultado é uma explosão de tendência do tópico “Quencher” no Google (ou um aumento impressionante nas pesquisas de termos relacionados como “Stanley” e “Tumbler”) de novembro de 2023 até hoje, para um produto que foi lançado em 2016. Alguns atribuem esse fenômeno a uma colaboração com o site The Buy Guide (TBG), que, segundo suas fundadoras, foi criado em oposição à tendência de influenciadores do Instagram. As três mães do lar brancas transformaram seu hobby de comprar presentes online em um empreendimento de sucesso, porque estavam “cansadas de ver pessoas perfeitas e fotogênicas vendendo produtos de uso diário no Instagram”. Essas mulheres meio que lideraram esse estilo particular de influência, que rejeita as personalidades ultra curadas das influenciadoras nas mídias sociais, em favor de postagens elegantes e bem pesquisadas centradas em produtos. A colaboração da TBG com a Stanley desencadeou uma tendência que alguns dizem ter saído do controle. Há violência e crime nas lojas quando novas cores são lançadas nos EUA, as redes sociais estão inundadas de colecionadores ávidos e os copos da Stanley já estão surgindo nas praias e bares brasileiros. Nem a Stanley nem a TBG seguiram um guia de marketing “como fazer” (“how to”) para alcançar vendas como essas. Ambos foram inovadores nos seus respectivos campos de produtos e serviços, mas isso por si só não explica o seu sucesso. Eles também estavam na vanguarda de uma nova estratégia de marketing. A Stanley se autodenomina a inventora da garrafa de aço térmica a vácuo em 1913, mas o conceito da garrafa térmica a vácuo foi desenvolvido por James Dewar na Escócia algumas décadas antes. Só em 2020 é que o novo presidente da Stanley, Terence Reilly, implementou claramente a estratégia de marketing do seu tempo na Crocs – utilizando “criadores de gosto” (“tastemakers”) para aumentar a demanda por uma estética de marca única. Hoje em dia, tastemakers podem ser encontrados no TikTok, e é por isso que ele deu um carro novo para uma TikToker. Essa cultura empresarial é descrita por uma funcionária como “oportunismo visionário”, onde uma oportunidade de tendência é encontrada em territórios ainda não explorados. O oportunismo visionário requer dinheiro. Um empreendedor já precisa ter dinheiro para investir em testes de estratégias de marketing que ninguém experimentou antes. Para pessoas sem dinheiro para esse investimento inicial, “how to’s” e SEO, nas palavras da Amazing Money Marketer, “obtêm pouco ou nenhum resultado”. Essas ferramentas são uma espécie de folclore que transmite os costumes capitalistas à próxima geração. Mas, como vimos nas tentativas fúteis de criminalizar a negociação com informações privilegiadas (insider trading), o mercado global não é apenas mais uma aposta do que uma ciência, é uma aposta fraudulenta. Será que esses contos e costumes deveriam continuar a ser preservados? O sucesso de um negócio, tal como a estabilidade do mercado global, não se baseia na fiabilidade dos modelos linguísticos e na previsibilidade da demanda do consumidor. Baseia-se no capital inicial, cálculos de aposta e muita sorte. O fato de que o capitalismo ainda é descrito como o único sistema que funciona, onde o sucesso financeiro se baseia apenas no mérito, parece uma tentativa desesperada de enxergar ordem no completo caos e incerteza do nosso mundo moderno. ____ Mirna Wabi-Sabi é fundadora e editora-chefe da Plataforma9, autora dos livros Anarco-Transcriação e Finge Que Isso é um Celular.

  • Cedemos poder aos Autoritários quando tememos a Autoria

    “É privilégio dos Deuses não querer nada, e dos homens endeusados quererem pouco” (Diógenes) Anarco-transcriação, meu primeiro livro, é sobre como criar quando você não é ou não deseja ser um Deus, ou um homem endeusado. As fontes nele contidas vêm do contexto de publicação de um projeto de tradução, que é minha área profissional, mas os princípios podem ser aplicados a qualquer projeto que você precise (ou queira) realizar com mais pessoas do que apenas você mesma. Nenhum ser humano é invencível – muita coisa está fora do nosso controle e não há escudo contra a repreensão. Mas na busca pela invencibilidade, uma de duas ferramentas é geralmente empregada – controle forçado/coercitivo de outros, ou auto-isenção de responsabilidade e iniciativa. A primeira, sobre exercer controle, com a qual estamos bem familiarizados no discurso político global, orbita percepções de Autoridade, Autoritarismo e Hierarquia. A tentativa de se tornar invencível através do uso da força é a base para a criação de Estados-nação e das suas forças armadas. A segunda me interessa mais porque é pouco reconhecida. É quando nos esquivamos de responsabilidade, delegando responsabilidades a outras pessoas. O medo do fracasso ou do escrutínio não só é um obstáculo maior à autogestão do que 'as Autoridades', mas é também o método através do qual entregamos Poder às forças autoritárias. Dessa forma, nenhuma das nossas criações é vencível, porque nenhuma dessas criações são realmente nossas. O medo da autogestão é o que leva alguns de nós a pensar que votar em representantes é a forma mais importante de atuação política, com queixas ocasionais quando, inevitável e repetidamente, os testemunhamos sendo incompetentes. Vemos os políticos falharem, isso nos frustra, no entanto, nos sentimos seguros por não ter que assumir, por conta própria, certas responsabilidades, e arriscar falhar também. Na minha experiência como editora, tem sido fácil identificar quando uma escritora tem medo de fazer sua própria declaração, se escondendo atrás de citações após citações de outros escritores, nem mesmo assumindo autoria sobre sua curadoria. Essa é a diferença entre dizer “Esta é a declaração da minha tese, e estas são as fontes que utilizo para sustentar esta afirmação”, versus, “Esta tese é sobre o que estes pensadores afirmaram”. Quando se trata de gestão (de uma comunidade, organização ou projeto grande), executar por conta própria (autogestão) significa assumir responsabilidades e tomar decisões com outros, em vez de delegar a responsabilidade de uma decisão a uma figura de autoridade. Isso não significa nos transformar em uma Autoridade, mas assumir a responsabilidade por certas decisões e ações em projetos específicos. Eu chamo isso de Autoria. Nas estruturas sociais aspirantes ao Anarquismo, há uma aversão ideológica à Autoridade, mas isso não significa que a dinâmica hierárquica não se forme insidiosamente. Pessoas que desejam o poder e pessoas que o temem talvez se unam facilmente, mas o conflito também pode surgir aqui. Isso acontece porque as pessoas que temem a autogestão não têm necessariamente medo de criticar aqueles que governam ativamente. Existem lutas pelo poder entre pessoas que querem governar todos, e ciclos intermináveis ​​onde nada acontece entre aqueles que temem assumir responsabilidades. Todas as configurações estão sujeitas a confusão. A autoria é uma prática anarquista, porque exige e é um exercício de autogestão. Quando escrevi: “se você precisar de ajuda com seu projeto, ele não é mais só seu” estava pensando na autoria literal de um livro, ao mesmo tempo que colaboramos com designers, gráficas e todas as outras facetas de uma publicação. No capitalismo, precisar de ajuda para um projeto não significa compartilhar a autoria pelo simples fato de que o dinheiro pode comprar os frutos do trabalho; como tal, tudo o que eu compro, torna-se meu. O homem acumulando riqueza é o homem se tornando semelhante a um Deus e querendo pouco. Ainda não se sabe onde o sistema capitalista funciona. No contexto das publicações anarquistas impressas, a negociação da autoria é uma prática contínua inevitavelmente atravessada pela questão do dinheiro. Normalmente, quem tem o dinheiro é quem tem a Autoridade. Mas existem inúmeras oportunidades para encorajar o exercício da autogestão em grandes projetos com orçamentos limitados. Como eu disse antes no livro, não há garantias. Não existe um caminho estabelecido por um ancião anarquista a quem delegamos a responsabilidade de decidir o que precisa ser feito, a quem delegamos a responsabilidade de definir o que é a coisa “correta” a fazer. O exercício da autogestão exige coragem individual, talvez hercúlea. A coragem necessária para se 'autogovernar' não tem a ver com a adoção da revolução armada ou de qualquer outro método de força. Acredito que se os grupos revolucionários tivessem o apoio total da população, as instituições autoritárias que devem ser minadas poderiam simplesmente ser feitas obsoletas. E que se não tiverem o apoio total da população e optarem por assumir o poder à força, é apenas uma questão de tempo até que esses grupos também sejam sujeitos a resistência de movimentos revolucionários. Uma revolução da narrativa, para mim, é uma forma de alcançar um consentimento mútuo duradouro entre uma população, e isso exige que a população seja politicamente alfabetizada em autogestão. Alguns dizem que isso é inalcançável, mas considerando a quantidade escandalosa de riqueza, recursos e tecnologias que as potências ocidentais acumularam ao longo do último século, me parece que essa impossibilidade reside mais na falta de disposição do que na falta de opções. Se, neste ponto do texto, você continua esperando que eu te diga quais são essas opções e como as praticar, o conceito de autogestão ainda não está claro para você. Uma das críticas mais comuns ao Anarquismo como ideologia é que ele não define claramente como será uma sociedade anarquista – quais instituições farão o que, e serão dirigidas por quem, como... Alguns anarquistas se envolveram nisso, o que apenas frustra ainda mais as pessoas que desejam orientações claras. Isso se deve a uma razão simples: a autogestão não pode depender da intervenção de uma autoridade externa. Em outras palavras, se você precisa ser dito o que escrever, você não tem a autoria. Aqui, não estamos discutindo a criatividade. Muitas pessoas criativas têm dificuldade em criar projetos ou em abster-se de delegar responsabilidades a figuras de autoridade. Estamos falando de um estado de espírito em que escolhemos buscar possibilidades. Normalmente, isso acontece quando se testemunham eventos revoltantes liderados por forças autoritárias; assim, somos motivados a pensar em alternativas, estratégias de resistência. Idealmente, o horror e o desastre não deveriam ser uma necessidade nesse processo, mas a situação é ainda mais terrível. A tragédia constante não tem sido um motivador suficiente. Então, o que será suficiente? ______ Mirna Wabi Sabi é escritora brasileira, editora do site Gods and Radicals e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos da editora P9.

  • ‘Guerra Civil’ expõe os EUA como vencíveis

    Por Mirna Wabi-Sabi Originalmente publicado na Le Monde Diplomatique Estrelando Wagner Moura, o filme sinaliza que, mesmo repleta de armas militares pesadas, a narrativa revela-se o elemento mais mortal da história Este mês, o filme Guerra Civil estreou nos cinemas com uma mensagem de nuança, mas clara: a “América” como nós a conhecemos pode, muito bem, chegar ao fim em breve. A escalação da estrela brasileira Wagner Moura é calculada, destacando a ambiguidade e a complexidade das relações raciais nos EUA. O personagem brilhantemente aterrorizante de Jesse Plemons coloca uma questão real ao personagem de Moura quando confrontado com a informação de que eles são “jornalistas americanos”, questionando “que tipo de americano você é, centro, sul?” Não é fácil colocar os brasileiros na narrativa norte-americana sobre o que são os “latinos”. Sendo a população não-hispânica mais substancial da América do Sul, tudo o que um supremacista “americano” precisa saber é que não somos brancos. A narrativa, porém, é uma arma de guerra poderosa, se não a mais poderosa de todas. Há tremenda violência física no filme, como é esperado na guerra. Isso sinaliza duas coisas. Uma delas é: qual é a sensação de testemunhar o horror da guerra, que está atualmente em curso no mundo, mas em vez disso em solo estadunidense? E a segunda é que, mesmo repleta de armas militares pesadas, a narrativa revela-se o elemento mais mortal. A população dos Estados Unidos está dessensibilizada à brutalidade daquilo que o seu governo endossa e perpetra em outros países. Não é horrível testemunhar a destruição de tudo o que você ama? Ver entes queridos morrerem, as suas instituições mais poderosas tornarem-se obsoletas e o seu futuro ser interrompido; é isso que este filme explora. O mais interessante é que o filme explora a dificuldade de abraçar uma narrativa coerente que explique toda essa aniquilação, ou que de alguma forma justifique o derramamento de sangue. Enquanto o presidente continua a espalhar falsidades ao público, soldados supremacistas desprezam (e matam) qualquer um que não tenha nascido e sido criado nos Estados Unidos da América, e os revolucionários simplesmente matam qualquer um que esteja ativamente tentando matá-los. De certa forma, é tão simples quanto isso. Mas, ao mesmo tempo, há pouca ou nenhuma explicação para a violência. Os filmes anteriores de Wagner Moura no Brasil foram notoriamente politicamente ambíguos, e esse segue o exemplo. Ele nunca demonstrou interesse em fazer propaganda esquerdista simplista, mas considera absolutamente necessário desencadear um debate sobre o absurdo das situações políticas em que nos encontramos. Mesmo que isso signifique deixar espaço para interpretações políticas opostas dessas histórias. Não há melhor maneira de transmitir essa nuança de posição do que através do trabalho de jornalistas impossivelmente imparciais. A forma como os jornalistas constroem a narrativa baseia-se na crença de que ela deriva de um ponto de vista neutro. Em teoria, o jornalismo conta a história, não influencia nem endossa os acontecimentos que relata. Esse filme pode não afirmar explicitamente que a Casa Branca deveria ser destruída, mas procura mostrar como ela pode sim ser obliterada. A justificativa para isso poderia ser simplesmente que toda a guerra decretada e executada no estrangeiro acaba chegando nas portas de nossas casas. A personagem de Kirsten Dunst descreve isso como o propósito fracassado de seu trabalho como fotógrafa de guerra internacional – foi um aviso ignorado em casa. Portanto, o jornalismo tem um propósito político, porque sem propósito ninguém arriscaria a vida para fazê-lo. Dominar a arte de criar uma narrativa convincente é demorado, útil, poderoso e consideravelmente mais desafiador quando se busca a verdade. Nunca será uma verdade imutável, porque é uma construção. Mas é verdadeira para alguma coisa; valores, objetivos honestos ou um propósito transparente. O filme Guerra Civil mostra o que pode acontecer quando negligenciamos esses objetivos, perdemos a clareza desses valores e desistimos do propósito pelo qual fazemos o que fazemos. A forma como interpretamos acontecimentos ou justificativas para ações está diretamente ligada à narrativa construída em torno deles. Essa narrativa não é a única e não é suprema. Ela foi criada por alguém com um propósito. Escolhemos, conscientemente ou não, adotar uma narrativa um em detrimento de qualquer outra. A primeira cena de Guerra Civil é uma representação de como a narrativa que a Casa Branca profere, do excepcionalismo norte-americano, já não é mais convincente – nem mesmo para o presidente, cuja função é vender a história. No centro da disputa política, que descamba para a guerra em solo estadunidense, está o fato de que os estadunidenses deixaram de acreditar na imagem da “América” como invencível. Essa mudança na narrativa é o que leva as forças revolucionárias armadas a assumir o controle. No filme, não precisamos saber quem são esses revolucionários, ou qual presidência está supostamente sendo representada. O que importa é o quão frágeis realmente são os Estados Unidos da América, a terra da liberdade. No final, há uma explicação simples para tudo o que acontece: se você é implacavelmente atacado, o que mais há a fazer senão revidar? _________ Mirna Wabi Sabi é escritora, editora, e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos da editora P9.

  • Arquivos da Plataforma9

    [Artigos arquivados da Plataforma9] Justiça e jornalismo nas Américas Buala (Portugal) Aprendendo a se mobilizar em tempos de repressão, crises climáticas e guerras A Inimiga da Rainha Uma história de deslocamento das mulheres não-brancas da Vila Mimosa LavraPalavra Comida e abrigo A Terra é Redonda Mirna Wabi-Sabi, fundadora da Plataforma9, nas plataformas: A Inimiga da Rainha Agência de notícias das favelas Agência de notícias anarquistas

  • A tragédia do Museu Nacional começou muito antes do incêndio

    O país inteiro ficou perplexo ao ver o Museu Nacional literalmente em chamas, como se fosse nossa vez de sermos destruídos pelos alienígenas do “Independence Day”. Quando acabou, oscilamos entre emoções de raiva e tristeza, lamentando a perda de objetos insubstituíveis e 200 anos de trabalho de muitas pessoas no incêndio. Fomos descuidados com nossa história material e irresponsáveis com a preservação de nossa memória desde sempre que este museu existe, por que estamos chateados agora? Nossa indignação com o incêndio no Museu Nacional parece vir da vergonha de ter falhado em alcançar um padrão europeu de possuir História. Escrito por Mirna Wabi-Sabi Leia no Jornalistas Livres

  • Cracolândia na Maré: a vida e o uso de crack no Rio de Janeiro

    Se levarmos a perspectiva sobre autonomia e dependência em consideração ao olhar para usuários de crack na cracolândia, desenvolveremos uma compreensão mais refinada das causas por trás do chamado “vício incapacitante”. Na cracolândia, a substância em si não é o que causa crime, miséria, pobreza e assim por diante. Se fosse, a “guerra às drogas” teria sido mais eficaz, pois se propõe erradicar as substâncias por meio de intimidação de usuários e traficantes. Impossibilitar ou dificultar o acesso às drogas não resolve o problema de falta de moradia, baixa autoestima, escassez de opções profissionais, falta de acesso à educação enriquecedora e até a uma dieta saudável. A causa por trás da dependência ao crack é, no entanto, o fracasso da sociedade em fornecer um leque mais amplo de oportunidades. Em outras palavras, o problema é a nossa incapacidade de oferecer opções para essas pessoas, e a chance de poder escolher e poder contar com o que é oferecido. Texto: Hannah Vasconcellos e Mirna Wabi-Sabi Fotos: Fábio Teixeira Leia aqui: Agência Pública Midia Ninja LavraPalavra

  • Por que ler Tudo Que É Sagrado É Profanado

    Por Thiago Sá Talvez a melhor maneira de escrever algo sobre Tudo que é sagrado é profanado – uma introdução pagã ao marxismo e sobre a experiência de lê-lo e de traduzi-lo seja citando um trecho em que minha própria relação com o livro foi profundamente definida: o momento, diferente para cada pessoa, do “ah, então é isso”! Para mim, esse momento-chave é a perseguição entre Ceridwen e Taliesin, pois é aí, nas transformações e contradições constantes entre os dois personagens, que o autor demonstra toda a força do materialismo histórico-dialético na (re)construção de uma relação de mundo novamente encantada, porém jamais alienada. As contradições do próprio Capital parecem aproximar-se cada vez mais do seu limite. Entre uma pandemia de proporções históricas inéditas e o acirramento de uma crise econômica que vem se arrastando desde 2008, parece difícil acreditar que uma “normalidade”, mesmo a normalidade assassina do próprio Capitalismo, possa ser recuperada. No entanto, e isso é algo em que precisamos pensar, e pensar de maneira coletiva, esse limite das contradições do Capital lhe são agora impostas sobretudo por todas as cadeias vivas de seres não-humanos, de tudo aquilo que o nosso mundo moderno se acostumou a chamar de “Natureza” e que o capitalismo expropriou e segue tentando expropriar. Na realidade, se existe algo que uma perspectiva animista, “pagã”, pode nos oferecer, e esse é o objetivo também desse livro, é a possibilidade de compreender o Capitalismo nas suas relações de exploração e expropriação como mais amplas do que apenas o mundo humano. O trabalho do geógrafo Jason W. Moore, por exemplo, aponta para a relação direta entre expropriação de povos indígenas e populações tradicionais e a própria destruição ambiental que a acompanha: a destruição da amazônia afeta a própria teia da vida local, da qual participam populações indígenas, plantas, pássaros, onças e espíritos – mesmo que estes últimos venham ao nosso conhecimento apenas através dos próprios indígenas. O que se expropria e se explora, portanto, não se resume ao humano, e o humano não tem, necessariamente a centralidade desse sofrimento. O ponto, claro, não é abrir um debate ou uma disputa para decidir “quem sofre mais”, se humanos ou não-humanos, se trabalhadores explorados ou se camponeses expropriados. O ponto, um ponto que o animismo nos ajuda a reconhecer, é tentar encontrar zonas fracas, contradições, nas violências do capitalismo não apenas contra nós, humanos urbanos, para que possamos tecer alianças contra um inimigo comum. Além disso, este é um livro que busca fazer uma ligação extremamente necessária entre duas esferas da nossa existência que estão, há muitos séculos, artificialmente separadas: a da espiritualidade e a da nossa atuação política e social. Como se não bastasse uma certa influência perniciosa do protestantismo europeu, de enclausurar a experiência espiritual e religiosa no exclusivamente privado, doméstico e individual, ainda por cima parece que a modernidade está condenada há séculos a ser ou ateia ou cristã. Tudo aquilo que escapa a esses dois polos (que muitas vezes são indissociáveis, se percebermos que o humanismo ateu é a promessa da nova humanidade cristã realizada através da razão iluminista) é empurrado para as margens da razão e, por consequência, da nossa atuação política: é a religião dos “outros”, das “minorias”, dos “supersticiosos”, dos “ainda não esclarecidos”. No entanto, acredito que o esforço em se falar de política, e especificamente de marxismo, através de termos pagãos nos relembra que, em primeiro lugar, espiritualidade ou religião não precisam ser restringidos estritamente ao “ser”: ser ateu, ser cristão, ser candomblecista, ser espírita etc – a questão não é colocar uma nova opção no cardápio da nossa espiritualidade moderna esburacada, mas sim se permitir considerar nossa atuação política e social também através da espiritualidade, mesmo que não seja a espiritualidade a qual estamos acostumados. Em segundo lugar, nos convida a considerar essas espiritualidades “estranhas” à racionalidade moderna como perspectivas de atuação, como armas para nosso fazer social, como lições valiosas à nossa existência concreta. Daí a importância de um mito irlandês antigo, no caso desse exemplo do livro que escolhi. Daí também, trazendo para nosso contexto brasileiro, ler e levar a sério a maneira como Davi Kopenawa, em A Queda do Céu, descreve a civilização capitalista: o povo da mercadoria, cujo pensamento foi esfumaçado pela fumaça da epidemia e do metal. O convite que gostaria de fazer com esse livro, com essa tradução para o português de Tudo que é sagrado é profanado, é o de permitir que nossa crítica ao capitalismo e nossa atuação política aprendam também o que o animismo, o paganismo, a feitiçaria, a “superstição”, a macumba, enfim, tudo aquilo que foi marginalizado pela razão europeia tem a nos ensinar. No mínimo, porque nós, como trabalhadoras e trabalhadores, também fomos, por essa mesma razão, por essa mesma práxis, marginalizados. No entanto, se os limites do Capital são alcançados antes por uma crise ambiental, uma pandemia ou um cataclisma climático, e não pela culminância da luta de classes, como se imaginava no início da civilização industrial do século XIX. E se nós, da classe trabalhadora, não soubermos aproveitar esse momento para nos organizarmos, nada garante que um futuro sem capitalismo seja um futuro sem classes, sem exploração. O capitalismo é também, ele mesmo, a forma historicamente atual da opressão, da exploração e da expropriação de uma maioria por uma minoria. Assim como já houve (e em muitos lugares, ainda há) escravidão, novas formas de exploração, que não dependam do trabalho assalariado, podem surgir se permitirmos que os atuais donos do poder sigam ilesos. Tudo Que É Sagrado É Profanado Disponível Aqui

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