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  • Guerra e abuso contra populações vulneráveis

    As Forças Armadas em guerra contra o povo. AS FORÇAS ARMADAS A guerra não é a mesma que era no século passado. Ela evoluiu para formas híbridas , e encontrou novas maneiras de silenciar a má conduta, e fatos em geral. Podemos não ver as armas ou os soldados, mas todos os aspectos de nossas vidas são afetados pela função que essas pessoas exercem. Toda vez que viajamos ou compramos comida importada; na verdade, sempre que nos identificamos como tendo uma nacionalidade, é por causa deles. Instituições militares de defesa são a razão pela qual Estados e Governos existem , porque as fronteiras importam, porque falamos uma certa língua, e porque não podemos simplesmente botar uma barraca na praia. Mesmo assim, a presença militar pode se tornar ainda mais proeminente no cotidiano e durante tempos supostamente pacíficos. A possibilidade de um regime militar no Brasil tem flutuado em conversas desde antes da presidência de Bolsonaro. Ele notoriamente defende o regime militar, foi um oficial durante a ditadura, e disse que não aceitaria o resultado da eleição presidencial se não vencesse – Recentemente admitindo em entrevista que cogitou intervenção militar em 2022. Em seus 27 anos de congresso, o Rio de Janeiro foi alvo de 36 operações das Forças Armadas (FA). A primeira no Rio, em 92, também foi a primeira do país. Os casos em que as FA são usadas para controlar a população brasileira são chamadas de GLO’s, “Garantia da Lei e da Ordem.” Do total direcionado à 'violência urbana,' 43% aconteceram no Rio. Enquanto a maioria dos outros estados tiveram 0, sete estados tiveram 1, e três tiveram 2 – O Rio teve 10 (sem contar 1 operação que teve 15 fases). Agora que ele foi presidente, ficamos atentos com a hiper militarização do Rio se espalhando pelo Brasil. A presença militar no âmbito civil traz algumas implicações previsíveis para a segurança pública e a "lei e ordem." Os militares são empregados como forças policiais, a percepção pública sobre o crime sofre uma mudança drástica, e a privatização dos presídios torna tudo extremamente lucrativo. MISOGINIA As mulheres foram introduzidas nas FA apenas recentemente . Houve pressão para que isso acontecesse durante a presidência de Dilma, já que ainda não havia mulheres de alto escalão na área. Quando Dilma sofreu impeachment, em 2016, a esposa do homem que a substituiu foi elogiada por ser “ bela, recatada e do lar. ” Esses são métodos midiáticos passivos-agressivos de manter as mulheres no âmbito doméstico (e, neste caso, fora do 'mais alto cargo' do país), mas também existem métodos mais agressivos, visíveis nas figuras consistentemente alarmantes de crimes de ódio contra mulheres e pessoas LGBTQIA+ . Incluir mulheres nas Forças Armadas pode não resolver o problema do sexismo, mas pode provocar mudanças rápidas e significativas na vida de mulheres marginalizadas que inevitavelmente interagem com as FA, além de impactar a cultura interna da instituição. A desmilitarização da assistência humanitária e dos recursos de saúde deve ser o próximo passo. Para assegurar os efeitos duradouros dos esforços de saúde pública, é essencial acabar com a situação de desabrigo, garantindo moradia estável e acesso a água encanada para todos. A primeira solução é apenas mais rápida porque já foi discutida por algumas décadas, e a mudança mesmo assim acontece lentamente. Enquanto as outras soluções infelizmente não são comumente consideradas no discurso público. Em 2011, foi publicado um estudo sobre a inserção de mulheres na Marinha. Esta é a opinião de um oficial sobre como esta mudança tem sido: – Relato na página 90 de um artigo de 2011 chamado “ Políticas Públicas de Gênero: A inclusão das mulheres na Marinha do Brasil como militares. ” Foi difícil escolher uma citação para analisar; este artigo está repleto de comentários machistas velados como não-sexistas porque são apresentados como elogios ou como simples fatos. Por exemplo, as mulheres trouxeram “uma maior importância a arrumação e a limpeza” para o ambiente de trabalho (p. 91), como se uma grande coisa que as elas tivessem a oferecer fosse sua inclinação para o cuidado doméstico. Essa atitude ignora completamente a conjuntura sócio-política que levou as mulheres a verem as tarefas domésticas como sua responsabilidade (muitas vezes não remunerada), enquanto o homem sai para fazer o trabalho real (pago e relevante). Elas fazem tudo com mais “docilidade” e “carinho” (p. 89), são mais estudiosas e caprichadas, não podem ouvir palavrão, e homens devem evitar ter conversas de “muito baixo calão” perto delas. Além de acharem a presença de mulheres de maiô “constrangedora” durante a educação física. Mulheres oficiais e praças são especificadas como “mulheres,” enquanto “homem” é omitido e implícito. Isso grifa o masculinismo como se fosse tradicional. Ele especifica a masculinidade apenas quando descreve o sexo como algo que os 'homens' procuram. Dessa forma, tratando o sexo como algo que os homens querem das mulheres, simbólico da cultura do estupro. “Extraconjugal” e “lá fora” são termos alarmantes que exigem uma pesquisa urgente e detalhada sobre como esses homens tratam as mulheres locais nas regiões onde se instalam para trabalhar. Se a cultura do estupro emana de uma linguagem que é considerada tradicional, não podemos ignorar como ela revela uma atitude que pode se materializar a qualquer momento. Infelizmente, não há figuras ou dados referentes a má conduta sexual por parte de soldados e oficiais, apenas incontáveis histórias de maridos traindo suas esposas. FALTA DE DADOS Há falta de dados sobre agressão sexual, assédio e outros ataques morais de gênero cometidos por membros das FA. Em um relatório de uma reunião da Comissão de Gênero do Ministério da Defesa  ( CGMD ) em abril de 2015, uma representante da Secretaria de Pessoal, Ensino, Saúde e Desporto afirma que não há registro formal de casos de agressão porque o “'sistema' tende a abafar fatos ocorridos.” Logo em seguida, um representante da Secretaria de Organização Institucional  expressa preocupação com o objetivo dessa pesquisa de dados. Ele afirma já ter feito a pesquisa, encontrando um número insignificante de casos, alguns dos quais incluem homens como vítimas. Portanto, sua preocupação é com a tendência ao “denuncismo,” simplesmente ignorando comentários de mais de uma pessoa dizendo que não há figuras sobre o tópico (e nenhuma outra explicação clara do motivo para isso). Este ano, uma advogada naval me explicou que esses números não existem porque são considerados informações pessoais processadas pelos tribunais; dentro das FA, apenas o pessoal de Inteligência tem esses relatórios. Em outras palavras, relatórios e números existem, mas em sigilo . Nesse tópico, o diálogo público é formal, estéril e falso, especialmente quando admite que essas reuniões são uma resposta à pressão diplomática para alcançar padrões internacionais de igualdade de gênero. O comunicado de encerramento de um ministro descreveu a Suécia negando acordos diplomáticos com a Arábia Saudita e a Liga Árabe por causa dessa questão. Ou seja, não se deve prejudicar as relações diplomáticas com países ocidentais por atrasos nessa questão, e a islamofobia é um véu conveniente para o machismo. A mesma reunião gerou um debate sobre o uso da palavra “equidade,” já que alguns temiam que isso pudesse ser interpretado literalmente; como a expectativa de 50/50 na participação de homens e mulheres nas FA. Isso seria tão ruim? Para eles, sim, porque isso significaria substituir a meritocracia por algum tipo de cota. Como se as mulheres tivessem a opção de entrar nas FA, já que não há concursos o suficiente disponíveis. E quando tem, como se elas tivessem a motivação pessoal de serem moldadas a um ambiente violentamente masculino, onde nem mesmo as instalações são projetadas para acomodá-las . A CGMD ainda garante que os espaços femininos sejam concedidos apenas dentro de um sistema meritocrático ( 2017 ). O que isso significa não é que as mulheres possam entrar quando são qualificadas e valiosas, mas sim quando elas efetivamente alcançam os padrões já existentes (masculinos) que foram estabelecidos pelas instituições militares há 200 anos. A meritocracia nada mais é do que uma desculpa para marginalizar, nesse caso, mulheres. Nos registros de reuniões de 2014 já se revelam confrontos entre “conversas sobre  mulheres” versus “conversas com  mulheres.” Um coronel anunciou o workshop Proteção das Mulheres nas Operações de Manutenção da Paz da ONU , sobre como proteger uma população feminina local durante missões de “paz.” No entanto, não havia mais vagas disponíveis para membros da CGMD, o que levou uma mulher, membro da Escola Superior de Guerra a estabelecer a porcentagem embaraçosamente baixa de mulheres na instituição educacional (18%). Geralmente, esses baixos percentuais são atribuídos ao fato de que as mulheres só se inscrevem para o Exército voluntariamente, enquanto para os homens brasileiros, a inscrição é obrigatória. Todas as carreiras do Exército são voluntárias; os homens não têm obrigação de servir mais do que 1 ano, e esses 9-12 meses serem obrigatórios para os homens apenas garante a predominância masculina na área. COLONIALISMO “As mulheres ribeirinhas são oportunistas, e vão atrás da pensão. Então use camisinha e não a deixe em qualquer lugar – dê descarga.” Um oficial da Marinha me relatou este conselho dado aos recém-chegados nos 9º, 6º e 4º distritos navais – Sobre descartar evidências de má conduta sexual enquanto a trabalho no norte do país. Esse oficial também me disse que viu colegas de trabalho gastarem mais de 20 mil reais em um fim de semana “fazendo festa” com mulheres locais. Alguns vivem vidas extravagantes em áreas carentes e gostam de chamar atenção por ter dinheiro. Esses distritos incluem a população mais vulnerável do país e também com o maior número de pessoas indígenas; inclui os estados Amazonas e Pará, onde o rio Amazonas se encontra com o oceano. Lá, as populações Ribeirinhas são consideradas indígenas ou quilombolas. Principais quartéis-generais e bases da Marinha do Brasil (Wiki-Commons Rússia) A Marinha, como uma instituição criada em um período explicitamente colonial, ainda hoje legitima que homens explorem sexualmente mulheres 'não-brancas,' indígenas e da diáspora africana. Mesmo se uma agressão sexual fosse denunciada, o que é raro, nem o agressor nem as autoridades responsáveis conseguem interpretá-la de uma perspectiva que não fosse tradicionalmente patriarcal e colonial. “É um conselho que mostra a normalização do abuso sexual, muitas vezes no uso do poder sobre as mais vulneráveis. A desumanização dessas mulheres em descrevê-las como oportunistas desconsidera como suas condições de vida foram profundamente moldadas pela exploração contínua.” – Jördis Spengler, socióloga. O workshop “Proteção das Mulheres em Operações de Paz da ONU” de 2014 parece não ter sido frutífero até agora. Essas reuniões, grupos ou siglas institucionais fizeram avanços significativos no bem-estar das mulheres neste século, ou elas existem apenas como uma fachada das Relações Internacionais exibida para o Ocidente? PREPOTÊNCIA A Cartilha Maria da Penha  descreve um aspecto relevante de um agressor como “prepotência.” Membros das FA tendem a ser atraídos pelo cargo exatamente pelo poder e influência que ele oferece. Isso se dá não apenas devido à artilharia pesada intimidadora, mas também no sentido de reputação, dinheiro, e acesso a espaços exclusivos e imponentes. No Brasil, as FA não garantem apenas a soberania do Estado, elas são usadas para controlar a mesma população que se propõe proteger. Uma parte significativa da polícia já é militarizada, mas também contamos com as Forças Armadas para fazer o trabalho em ocasiões especiais, as GLO’s. Em muitos casos, essas operações visam prevenir a população de acessar terras e recursos; de ocupar certos espaços. GLO’s são usadas contra a população nas favelas, comunidades indígenas, quilombos e protestos. A soberania da favela e sua população; O acesso dos povos indígenas e quilombolas a florestas, manguezais, rios e outras fontes de sustento espiritual, cultural e prático; A manifestação de opiniões e frustrações por meio de protestos urbanos; Esses são conceitos considerados ameaças ao Estado e justifica declarar guerra contra brasileiros(as). O artigo 331 do código penal garante o direito dessas autoridades de criminalizar o desacato. Como o desacato é um conceito abstrato, é fácil para policiais e soldados prenderem quem os antagoniza de alguma forma. Não obedecer às ordens significa um ataque contra o “funcionamento” do Estado, resultando em até 2 anos de detenção. A não ser que o caso tenha motivações políticas, o que pode ser classificado como terrorismo. São eles que detêm o maior poder e influência — a própria definição de prepotência. Apesar de isso não constituir prova de um crime, revela a urgente necessidade de conscientização de gênero para os integrantes das instituições de defesa. Além disso, reflete uma cultura presente nas Forças Armadas, e alterar essa norma é um desafio considerável em meio a tanta rigidez. O Centro de Estudos Estratégicos de Defesa  (CEED), uma iniciativa multinacional um tanto independente, começou a realizar uma pesquisa sobre mulheres no setor de defesa na América Latina por volta de 2015. Hoje ainda não está claro qual foi o resultado e a disposição do Ministério da Defesa  do Brasil de participar. Talvez as questões da pesquisa já implorassem por significantes mudanças. A seção 5 do formulário, dedicada ao Ambiente de Trabalho, pergunta sobre a existência de um escritório dedicado ao bem-estar das mulheres, apoio a vítimas de violência doméstica, registro de casos de assédio e programas de educação sexual. Dos oficiais que conheci, nenhum está ciente da existência desses programas, desta pesquisa, ou se quer foram expostos ao tópico em geral. Nos últimos 6 anos , o site do CEED deixou de existir. DESPEJO O que acontece depois do despejo de uma comunidade favelada? O entorno da comunidade Sem Terra do Parque União no complexo da Maré lida com instabilidade e despejos desde os anos 80. Apesar da área ter sido aterrada e loteada com o intuito de fornecer moradia acessível para comunidades vulneráveis, a vulnerabilidade persiste. Os despejos e demolições de construções irregulares tem qual objetivo? E o que acontece depois que famílias são despejadas? Para o despejo mais recente, de 2024, o motivo dado pelas autoridades e reproduzido pela mídia é que os prédios auxiliavam o tráfico de drogas na lavagem de dinheiro, e eram de “luxo” apesar de serem irregulares no papel. Ou seja, quem estava morando ali, nas estruturas inacabadas, não eram pessoas vulneráveis, pois tinham acesso a uma piscina – portanto, supostamente pessoas coniventes com ou do tráfico. Essa narrativa é criada para justificar a utilização do Exército Brasileiro contra a própria população do país, já que, para eles, trata-se de Crime Organizado e não de cidadãos brasileiros vulneráveis que merecem direitos básicos como moradia e saúde. Meio ano depois, muitas das 40 famílias desabrigadas continuam sem ter para onde ir, nas ruas da própria comunidade. Afundados em indignidade e obviamente sem acesso aos luxos supostamente disponibilizados pelo Crime Organizado, as brigas irrompem entre si, enfraquecendo o potencial para um movimento de resistência organizado. É impossível se organizar contra a narrativa construída pelas autoridades para justificar a marginalização quando essa marginalização é tanta que nem a sobrevivência no dia a dia é garantida. Poucos metros da comunidade Sem Terra, o Núcleo de Apoio as Operações Especiais , uma base militar, se instalou para dar suporte a operações de segurança, monitoramento e combate ao tráfico de drogas na região. A presença da base militar, com a promessa de proteção e ordem, acaba sendo mais uma fonte de tensão para os moradores da área. Muitas vezes, a violência policial se intensifica, com operações que resultam em ações indiscriminadas e a violência estrutural que perpetua a marginalização dos residentes. A narrativa de segurança pública, associada ao combate ao tráfico de drogas, se sobrepõe à realidade de uma população que está buscando apenas um meio de vida digno, longe da criminalização e da violência. A falta de políticas públicas efetivas de moradia e saúde para a população mais pobre cria um ciclo vicioso, onde o despejo e a violência se tornam o cotidiano. E quando as pessoas são forçadas a sair de suas casas, muitas vezes, sem qualquer tipo de suporte, elas se veem em uma luta constante pela sobrevivência. Com a desagregação das comunidades e a falta de uma rede de apoio, a resistência se torna cada vez mais difícil. O Estado, ao invés de atuar como um facilitador da inclusão social, se posiciona como um agente de controle e repressão, intensificando a desigualdade já existente. O despejo da comunidade Sem Terra do Parque União não é um caso isolado. Ele faz parte de um ciclo contínuo de remoções forçadas, que acabam por destruir as bases de solidariedade que, muitas vezes, são a única forma de resistência que os moradores possuem. O movimento de resistência, em vez de crescer, se fragmenta em meio ao caos social imposto pela ausência de políticas públicas efetivas. Diante disso, é necessário que a sociedade olhe para essas questões de forma crítica, reconhecendo que a verdadeira segurança e inclusão não se encontram na repressão, mas em ações concretas de acesso à moradia digna e saúde. Só assim, comunidades poderão se reorganizar e lutar por seus direitos de maneira efetiva, sem serem constantemente despojadas de tudo o que têm, inclusive da integridade de seus próprios corpos. CONCLUSÃO Não podemos aguardar um consenso unânime sobre o Patriarcado e o Estado serem problemáticos antes de começarmos a aplicar soluções. Sempre houve e continuará a haver uma resistência significativa à mudança. O enfraquecimento das estruturas hegemônicas parece assustador para aqueles que não conseguem conceber suas vidas ou o mundo sem elas. Isso se resume a uma completa falta de criatividade e a um privilégio suficiente para que uma série de desculpas nos mantenha em um caminho destrutivo. Perder a crença na meritocracia pode transformar a sociedade em uma onde a palavra “marginalizado(a)” não carregue um significado negativo. A perda do direito dos homens de perpetuar linguagem e comportamento misóginos resulta das mulheres conquistando espaço . Isso pode se refletir em mudanças significativas na atitude militar em relação às mulheres em áreas vulneráveis. Eu sinceramente não pensava em chegar a outra conclusão além de fortalecer minha oposição à ideia de alguém ingressar nas Forças Armadas . No entanto, será que as mulheres precisam de mais pessoas ditando o que elas devem ou não devem fazer? Talvez esta seja uma situação parecida com a do casamento gay; primeiro, precisamos legalizá-lo para a comunidade LGBTQIA+ antes de podermos questionar a instituição como um todo. O direito deles de serem ofensivos e “tradicionalmente masculinos” não é mais importante do que o nosso direito de ser independente, de não ser assediada, humilhada, assassinada, estuprada, comprada, e tudo que não queremos ser. Apenas a partir daí, podemos começar a nos tornar tudo o que queremos ser. __________________ texto: Mirna Wabi-Sabi Baseado em uma pesquisa publicada originalmente em 2019.

  • Bolsonaristas não apoiam Israel por respeito aos judeus e sim por desprezo aos árabes

    Há anos vemos Bolsonaro e seus apoiadores abanando bandeiras israelenses e estadunidenses, clamando pela vitória deles na aniquilação que continuam a incendiar na Palestina. Esse fenômeno já foi explicado teologicamente por muitos, com base nos ensinamentos bíblicos evangélicos. Mas essa explicação é insuficiente. Acreditar numa revelação sobre o retorno de Jesus, o julgamento das nações, e a chegada do “fim” não é nada em frente ao desdém emitido em direção ao mundo árabe pelo ocidente cristão. Ato bolsonarista em Copacabana - 21 de abril 2024 - Fotos por Fabio Teixeira Não custa muito lembrar que o desprezo que o mundo cristão tem ao ‘outro’ não é apenas direcionado ao árabe. Há desprezo ao africano, chines, indiano, árabe… e ao povo judeu também. Será coerente acreditar que a criação de Israel como nação foi mesmo uma vontade de Deus? Ou um fruto desse ódio, da supremacia racial enraizada em nossa sociedade cristã? Sim, é uma questão de raça, mais do que de religião. Apoiar um povo que exibe comportamentos culturais e valores supostamente mais ‘alinhados’ com os nossos, o que na Europa chamam de propensão à ‘integração,’ é código para apoiar uma sociedade ‘superior’ em detrimento de outra, que é ‘inferior.’ Na realidade, a pressuposição dessa inferioridade, ou atraso evolucionário de certos povos, é um dos traços mais tóxicos de nossas sociedades cristãs. E esse traço é muito mais latente do que qualquer conhecimento ou entendimento teológico ou histórico das pessoas sobre qualquer coisa. Não importa que nem todos os árabes sejam muçulmanos, não importa se sabemos em qual ano estamos no calendário islâmico, não importa que tanto muçulmanos quanto judeus traçam sua linhagem de Abraão, ou que a maior nação muçulmana do mundo nem árabe é. O que importa para esse eleitorado é o avanço da dominação Europeia no mundo, porque se acredita que os europeus (e descendentes deles) são os humanos mais evoluídos. Assim vemos nos Estados Unidos, onde o ‘americano’ de verdade é o descendente europeu. No Brasil, onde o brasileiro de verdade é o de alguma descendência europeia visível. E, assim, judeus tem sido usados por eles como linha de frente na guerra de dominação Europeia em seu avanço para o oriente. Na leitura teológica sobre o apoio cristão ao estabelecimento da nação judaica em Israel, o avanço de dominação Europeia no oriente significa acelerar o retorno de Jesus e o início do fim do mundo. Nesse ponto, o povo judeu será salvo baseado em sua disposição de… deixar de ser judeu. Será que as pessoas que acreditam que o sionismo, e o que está sendo feito com a Palestina, são vontades de Deus também acreditam que a Alemanha nazista apoiou a vontade de Deus, pelo simples fato de (também) ter influenciado decisivamente o estabelecimento do estado judeu? Fobia ao islã e racismo contra os árabes são motivações praticamente unânimes em meio de diversas divergências religiosas, de interpretação de passagens bíblicas, dentro do cristianismo. É possível olhar a situação em que estamos agora e enxergar uma evolução da humanidade, em comparação com milhares de anos de história religiosa? Será que os brancos, europeus não são capazes de barbarismo? Ato bolsonarista em Copacabana - 16 de março 2025 - Fotos por Fabio Teixeira Estamos presenciando a barbárie, um legado cultural, geopolítico, e religioso de milhares de anos, sim. Mas estamos, acima de tudo, testemunhando um paradigma de desintegração de valores espirituais que deram vida a todas essas religiões em primeiro lugar. É Ramadã. Pelo mundo inteiro, muçulmanos estão observando seus valores humanos e religiosos, praticando, na medida do possível, caridade, disciplina, e honrando esse presente divino que é estar vivo graças a Allah, Alhamdulillah . Enquanto isso, a barbárie continua, se exacerba, e os bolsonaristas levantam bandeiras em completo declínio espiritual e obliteração de valores humanos. Nós de nações cristãs, que de um lado afirmamos defender valores de liberdade, justiça, penitência e perdão, testemunhamos membros de nossas comunidades se deleitando na brutalidade da chacina. Em face dessa desgraça, eu, pessoalmente, boto fé no mundo árabe, em sua integridade humana e disciplina religiosa para forjar seu caminho de resistência. وَقَـٰتِلُوهُمْ حَتَّىٰ لَا تَكُونَ فِتْنَةٌۭ وَيَكُونَ ٱلدِّينُ لِلَّهِ ۖ فَإِنِ ٱنتَهَوْا۟ فَلَا عُدْوَٰنَ إِلَّا عَلَى ٱلظَّـٰلِمِينَ ١٩٣ “E combatê-los até que não haja mais perseguição e a religião seja para Allah. Mas se eles cessarem, que então não haja agressão, exceto contra os malfeitores.193” (2:193 Alcorão) _ Mirna Wabi-Sabi, Plataforma9.

  • O problema com o termo “pré-colombiano”

    A era pré-colombiana significa, essencialmente, tudo o que veio antes da chegada de Cristóvão Colombo, portanto, uma experiência humana nas Américas livre da influência europeia. Originalmente publicado 20 de setembro de 2023, na Le Monde Diplomatique . Ruínas Mayas em Tulum, antiga cidade portuária maia, no México (Aaron Huber/Unsplash) Pesquisadores frequentemente se referem às antigas civilizações das Américas, ou aos povos indígenas em geral, como “pré-colombianas”. A era pré-colombiana significa, essencialmente, tudo o que veio antes da chegada de Cristóvão Colombo, portanto, uma experiência humana nas Américas livre da influência europeia. O termo é usado para evocar uma abordagem científica e prática do tempo em vários campos de estudo: história, biologia, botânica, geografia, antropologia, política e a lista continua. Mas por que enquadrar o tempo dessa maneira? Qualquer experiência humana antes de 1492 corresponde a um período de pelo menos 15 mil anos, em 2 continentes. Do tempo total coberto pelo “pré” e “pós” colombiano na existência humana, o “pós-colombiano” equivale a no máximo 3% do total. Como tal, esse sistema parece ainda mais arbitrário do que “antes” e “depois” de Cristo. Nenhum desses homens está objetivamente no centro de qualquer medida de tempo.  Tecnicamente, o termo “ pré-colombiano ” não está incorreto. Também não é incorreto descrever a Ditadura como “Pré-Mídia Social”, mas por que fazer isso se não estamos falando sobre Mídia Social? A única razão para definir algo como “não europeu” é centrar a Europa na conversa, e isso não contribui no alcance de precisão nas análises de eras. Também não contribui no alcance de precisão nas análises de experiências indígenas, porque é vago demais para ser útil. Pelo menos útil para qualquer produção intelectual que vise a objetividade e o respeito aos seus sujeitos.  Se o tema da investigação são os Incas, por exemplo, categorizá-los genericamente como “existentes antes da chegada dos europeus” não demonstra respeito. Por essa medida, os maias e astecas também eram pré-colombianos, mas de regiões e épocas bastante diferentes. Incontáveis ​​civilizações, povos, etnias e línguas existiam nas Américas antes da chegada dos europeus, e a ampla categoria “pré-colombiana” é uma das características menos notáveis ​​de cada uma delas. Apenas os europeus rotulariam a existência de um povo indígena como “antes de os conquistarmos”. No campo acadêmico da História Humana, que deu origem a esse termo, foram tidos em consideração apenas relatos históricos europeus. Mesmo quando isso começou a ser questionado, em meados do século XIX, por ‘exploradores’ como John Lloyd Stephens, esses povos nativos, e as suas construções ou artefatos, ainda eram descritos como “descobertas”. Essa é talvez a única razão objetiva para usar o termo “pré-colombiano”, para apontar que algo aconteceu ou foi feito antes da descoberta europeia.  John Lloyd Stephens é frequentemente creditado como o descobridor de ruínas maias , mas ele dependeu de “ boca a boca ” para chegar até elas, o que significa que alguém lhe disse onde elas estavam. Stephens e a sua equipe não foram descobridores, foram documentaristas que analisaram os documentos históricos reunidos e chegaram à conclusão nada surpreendente de que foram realmente os maias que construíram os monumentos. Ao pensar no legado da civilização maia e no que essas ruínas simbolizam, descrevê-las como “pré-colombianas” é tão informativo quanto dizer “isso não foi construído por nós”.  Já foi argumentado que o termo “pré-colombiano” é um esforço de combate ao eurocentrismo , uma vez que diminui a ênfase do papel dele no período. Contudo, mesmo como negação, Colombo, um homem, é colocado no centro. Como pode ser que um homem, ao pisar numa ilha, instantaneamente, e sozinho, ponha fim a uma era de dezenas de milhares de anos? Monumentos magníficos, pirâmides, arquitetura, florestas criadas, tecnologias agrícolas e medicinais, possivelmente 100 milhões de pessoas espalhadas por cerca de 40 milhões de quilômetros quadrados de terra, estão todos colocados à sombra de um só homem. Isso é irreal demais para ser científico.  “Embora os dados devam ser puros e diretos, a ciência é feita por pessoas, que nunca são nenhum dos dois.” (Adam Rutherford, em Uma Nova História dos Povos Originários nas Américas ) Platypodium elegans, fotografado por Riccardo Riccio, para o projeto Seeds and Tales. Na botânica, várias espécies de plantas são atribuídas como descritas pela primeira vez pelos europeus. Isso porque o processo de “descrição de espécies”, tal como o conhecemos hoje, é uma invenção europeia – não tem nada a ver com o fato de uma pessoa ter encontrado a espécie pela primeira vez.  O Platypodium elegans , por exemplo, nativo do Brasil, está associado a um botânico alemão do século XIX chamado Vogel. Porém, o povo indígena Xavante, considerado uma das “ populações fundadoras das Américas ”, já se referia a essa planta como ‘wede itsaipro’ , ou “árvore com espuma”.  A descrição da espécie trata da primeira pessoa que encontra o espécime, que também atua no âmbito da publicação de artigos científicos. Isso significa que várias pessoas, comunidades ou culturas podem muito bem ter tido contato íntimo com as espécies vegetais descritas, durante anos, séculos ou milênios, mas não com publicações científicas em instituições acadêmicas europeias.  O conceito de ‘primeira descrição’ de novas plantas trata da construção de um banco de dados que segue um padrão estabelecido em 1735, na Holanda, por um botânico sueco chamado Carl Linnaeus. Ou seja, não se trata de descoberta, mas de consenso para seguir um padrão específico, criado em um local específico por uma pessoa específica. Essa norma pode a qualquer momento ser questionada e o consenso revogado.  Na época em que Linnaeus publicou Systema Naturae , ele acreditava que o mundo não abrigaria mais de 10 mil espécies de plantas . Embora o seu método seja interessante e útil, não estava exatamente equipado para sustentar a escala moderna de computação de dados, por isso teve de ser adaptado. Essa adaptação pode, e deve, ser levada mais longe para honrar não só a precisão nas descrições das espécies de plantas, mas também as civilizações que detêm um vasto conhecimento sobre essas plantas, há milénios. Esses povos originários desempenharam um papel no desenvolvimento genético de muitas plantas através de antigas tecnologias agrícolas e da domesticação de culturas, e informações valiosas sobre as propriedades medicinais, dietéticas e culturais dessas plantas não serão mais negligenciadas.  Xavante, entre outros, é um nome que deveria ser conhecido e falado sobre tanto quanto, e mais do que Colombo, Stephens ou Vogel. Para isso, deve-se fazer um esforço conjunto para substituir “pré-colombiano” por algo mais específico, como datas, localizações e nomes das civilizações e dos povos originários . A documentação produzida pelas expedições europeias pode muitas vezes ser útil, mas quando aceita sem crítica ou análise, perde-se muito mais conhecimento do que se ganha.   _________ Mirna Wabi-Sabi  é escritora, editora e fundadora da Plataforma9.

  • Nobel de Economia premia a comprovação de que quanto mais branco, mais rico o país

    Três homens caucasianos-americanos receberam um milhão de dólares para um projeto de pesquisa que conclui que a riqueza está onde os europeus estão Por Mirna Wabi-Sabi, originalmente publicado na Le Monde . O Prêmio Nobel de Economia deste ano recompensou uma pesquisa que aborda a pobreza de países do ‘Sul Global’. Segundo o presidente da comissão do Prêmio, os homens galardoados contribuíram para a compreensão de que instituições europeias fortes e funcionais tornam nações colonizadas mais ricas. Como tal, a ausência ou fraqueza destas instituições, causada por um lapso na disposição da população de defender os valores europeus que erguem essas instituições, é o que leva à pobreza. Em conclusão, para que um país pobre se torne rico, a colonização europeia deve não só continuar, mas se aprofundar e eliminar de uma vez por todas qualquer reminiscência dos sistemas e epistemologias pré-colombianas. “As Origens Coloniais do Desenvolvimento Comparativo: Uma Investigação Empírica”, de Daron Acemoglu, Simon Johnson e James A. Robinson, foi publicado na American Economic Review em 2001. Sua premissa é que a alta mortalidade entre os colonizadores europeus resultou em “instituições extrativistas”, que persistem “até o presente”. A atual extração de recursos para ganhos a curto prazo é um legado colonial causado pelas taxas de mortalidade elevadas entre os colonos. E o fato de a região ter sido hostil aos europeus durante a colonização manteve essas nações num ciclo de “ baixo crescimento econômico ”. Ser menos hostil, ou mortal, para os europeus significou que mais deles sobreviveram, portanto, instituições democráticas puderam ser construídas e sustentadas. O crescimento econômico foi estimulado e, portanto, esses países são agora menos pobres. “De acordo com os laureados, (…) não ocorre nenhuma melhoria” em nações onde as instituições são autoritárias, em contraste a “inclusivas”. Há uma distinção interessante, ou desconcertante, feita entre abordagens “inclusivas” e “extrativistas” da colonização: “Em algumas colônias, o objetivo era explorar a população indígena e extrair recursos naturais para beneficiar os colonizadores. Em outros casos, os colonizadores construíram sistemas políticos e econômicos inclusivos para o benefício a longo prazo dos colonos europeus.” (“ Eles forneceram uma explicação de por que alguns países são ricos e outros pobres “) É desconcertante que as abordagens sejam descritas como crucialmente distintas, quando, na realidade, estão igualmente e exclusivamente preocupadas com o bem-estar dos colonos. “Beneficiar os colonizadores” é literalmente a mesma coisa que o “benefício a longo prazo dos colonos europeus”. Agora, como os “sistemas políticos e econômicos inclusivos” diferem da ‘exploração dos povos nativos e da extração de recursos naturais’? Estes “sistemas políticos e econômicos”, que eles chamam de “inclusivos”, legitimaram a exploração e a extração, uma vez que foram geridos por colonos que só tinham em mente o seu próprio bem-estar. A distinção não reside onde afirmam os responsáveis pela premiação dessa pesquisa – não se trata de como um é mais democrático e humanitário do que o outro, e de como a democracia leva a um PIB per capita mais elevado. A distinção, para aqueles de nós que vivem nesses chamados “pobres países colonizados”, é o que constitui a legitimação da exploração e da extração. A linha entre instituições legítimas e ilegítimas é traçada pelos europeus, neste caso em particular por homens caucasianos-americanos com um Prêmio Nobel. Segundo eles, os países colonizados onde “ os colonos tentaram replicar as instituições europeias ” são opostos extremos daqueles onde os colonos apenas extraíram recursos sem estabelecer instituições ocidentais. Um é o Congo ou o México, enquanto o outro são os Estados Unidos ou a Austrália. Um é rico, o outro não. Um tem um sistema de eleições livres , onde a propriedade privada é protegida e as crianças obtêm diplomas do ensino secundário, enquanto o outro é atormentado pelo crime organizado, os políticos são corruptos e o empreendedorismo não é viável. Os pesquisadores atribuem essas diferenças extremas ao fato de algumas regiões simplesmente não serem convenientes para o assentamento europeu. Eles chamaram essas regiões de “ambiente da doença”. A aniquilação das populações nativas pelos colonos nos países onde estes impuseram as suas próprias instituições “inclusivas” não foi abordada. No entanto, o perfil racial das categorias de nações utilizadas como exemplo é bastante evidente. Os EUA, a Austrália, o Canadá e Hong Kong são ricos, supostamente porque são democráticos. Enquanto o Brasil, o México, a Guatemala e o Congo são pobres porque os seus governos têm sido corruptos ou autoritários. Argumenta-se que se as instituições da Nigéria pudessem “melhorar” como as instituições do Chile conseguiram, “o rendimento da Nigéria” veria um “aumento de 7 vezes”. No entanto, será que a malária e a febre-amarela, na verdade, protegeram certos países de uma maior dominação, expropriação e genocídio às mãos dos europeus? Será que ambos os modelos institucionais, “extrativista” e “inclusivo”, são criações europeias concebidas para subjugar os não-europeus? Será que o conceito de riqueza e os sistemas para a medir são invenções europeias que não foram concebidas tendo em mente o melhor interesse dos países colonizados? Do meu ponto de vista, como brasileira no Brasil, as instituições democráticas e “inclusivas” deste país não fizeram quase nada para proteger as nossas florestas da exploração, e muito menos para proteger as populações nativas da expropriação, da pobreza, do abuso e da morte. Para os pesquisadores, o Brasil é um exemplo de um daqueles países que foram explorados através do extrativismo porque a escravidão só foi abolida institucionalmente duas décadas depois dos Estados Unidos. Se, por um lado, o Brasil teve os seus recursos extraídos, por outro, os Estados Unidos tiveram o seu território deliberadamente povoado por europeus, e esforço foi feito para tornar esta migração em massa atrativa através da instituição de estruturas políticas ocidentais. Essa narrativa não leva em conta que o Brasil fez todas essas coisas, e mais – houve extração, incentivo ao assentamento europeu e à miscigenação, estabelecimento de instituições “inclusivas”, e escravidão, e uma ditadura, e o Mercado Capitalista Livre. Temos até nossa própria Monarquia . E ainda somos “pobres”. Essa pesquisa não se preocupou em saber como tornar as instituições europeias mais eficazes na proteção das pessoas nativas e da natureza. Estão preocupados em apresentar o argumento previsível de que os comunistas são autoritários e pobres, enquanto os capitalistas são democráticos e ricos. Os primeiros exemplos usados no documento “complementar” da American Economic Review para ilustrar a importância das instituições são, nas suas próprias palavras, os “ óbvios ” da Coreia do Norte e do Sul, e da Alemanha Oriental e Ocidental. Três homens caucasianos-americanos receberam um milhão de dólares para um projeto de pesquisa que conclui que a riqueza está onde os europeus estão. Sem discutir o fato que o conceito de Riqueza, como o conhecemos hoje, foi criado por e para europeus, os pesquisadores defendem a democracia e atribuem a falta dela à falta de presença europeia numa região. As pessoas de direita que clamam por um governo pequeno e um capital grande também não estão convencidas por essa pesquisa, por motivos completamente diferentes dos colocados acima. Eles veem o endosso de regulamentações governamentais como uma ameaça à prosperidade da economia. No final, é o mesmo velho debate entre Republicanos e Democratas estadunidenses, não sobre como acabar com a pobreza, mas sobre como continuar a garantir o domínio global do Mercado Livre. Uma investigação como essa, vencedora do Prêmio Nobel, evidencia como a Economia não é uma ciência evolucionária , é apenas uma história lucrativa. _____  Mirna Wabi Sabi é escritora, editora, e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos da editora P9.

  • Fernanda Young: O Feminismo Alimenta o Machismo?

    Fernanda Young, em sua análise sobre o feminismo, ignorou variáveis que não a serviam em sua viajem pelo controverso de alto ibope. ]Este artigo foi publicado em fevereiro de 2020, no site da Inimiga da Rainha .] Fernanda Young foi uma escritora e roteirista da Globo com seu marido. Ano passado [2019], ela faleceu inesperadamente, deixando três filhas e um filho. Esse ano [2020], me deparei com o livro dela de dois anos atrás, “Pós-F: Para além do masculino e feminino,” na Livraria Cultura em São Paulo, e me surpreendi com sua falta de tato em relação ao feminismo. Sua morte, mesmo sendo trágica, não pode se tornar uma oportunidade para ignorar seu legado problemático na construção de um pensamento coletivo Brasileiro onde o feminismo é difamado. Fernanda Young foi uma Rainha que deturpou conceitos abordados por muitas Inimigas do sistema que vieram antes dela. No sistema patriarcal, o homem também sofre, e isso não quer dizer que vamos descartar o feminismo. Mulheres feministas negras abordam o tema dos homens sofrerem neste sistema há décadas. Porém, eu diria que ‘homens sofrem também’ é usado para descartar o feminismo da mesma forma que ‘brancos são pobres também’ é usado para descartar o racismo. A escrita de Young é gostosa, mas a linha de raciocínio é vergonhosa. Ainda bem que no prefácio ela admite: “Achava que deveria partilhar a minha liberdade, inclusive de falar merda — coisa para qual tenho uma técnica, e afeto.” Mas é muita merda mesmo. Começando com: “O feminismo alimenta o machismo.” O machismo existia antes do feminismo, e se alimentava como? Vamos falar de todas as outras coisas que de fato alimentam o machismo? Como, por exemplo, muitos programas de TV…? Se não, nos afundamos na lógica que leva muitos a serem contra a vacina porque já aconteceu [talvez] que causou autismo em alguém. Já aconteceu que uma mulher mentiu e levou alguém a rejeitar o feminismo? Provável. Mas isso explica o machismo? Não. Isso justifica ignorar e rejeitar todos os exemplos de como o feminismo já salvou muitas vidas? Também não. Outro absurdo no livro dela é a transfobia. Para Young só existiam dois gêneros, e querer “mudar de sexo” era uma “precipitação,” porque a sexualidade não precisa disso — basta explorar melhor o seu corpo. É muita ignorância; está claro que ela se preocupou em escrever sobre pessoas trans sem nunca se preocupar em conversar com uma. Conversar e ouvir. Que editor passou o olho naquele capítulo e não se lembrou de avisar que sexualidade e identidade de gênero são coisas diferentes? Talvez tentaram em vão, recebendo a resposta: ‘Censura, jamais!’ E continua… Fernanda diz que já teve namorada e teve amigos gays, então homofobia não é a questão — se precisa ser falado, amigas, já deu ruim. A nudez da mulher virou um tópico contorcido. Para Young, na arte ela deveria ser vista como empoderadora. Porque evidentemente a mulher é “mais bela e interessante” do que o homem. Não querer ser rotineiramente retratada de forma sexualizada não significa machismo internalizado e rejeição do feminino. Por outro lado, se você usa “biquíni enfiado na bunda” tem que esperar receber cantada, como se não fosse assédio, porque é mais vulgar do que a nudez. Essa conclusão vem da premissa de que a nudez é arte e biquininho é erótico, que nos traz a questão mal resolvida de classe. O corpo sofisticado merecedor de admiração, versus o corpo vulgar merecedor de erotização. Além de classismo, a branquitude do texto emana quando ela fala dos horrores de ter que participar de reuniões de condomínio e de sua revolta contra o trabalho doméstico. Além disso, ela fez questão de dedicar um capítulo inteiro ao dado de que mulheres a assediavam mais do que homens, chamado “tudo agora é assédio.” A experiência pessoal de Young diz muito mais sobre ela do que sobre o comportamento dos outros. Será que ela contestaria os dados indicando que homens cis estupram e matam consideravelmente mais do que mulheres? Será que precisamos dos dados para saber que isso é verdade? Estes questionamentos não cabem na linha reta de raciocínio em direção à deslegitimação do feminismo. Minha discordância não é uma agressão, mas uma defesa de uma luta que não é de uma minoria. Até concordo com as críticas ao #feminismo diluído no fluxo das redes sociais. Mas devemos estar atentos a conclusões baseadas em uma única premissa duvidosa. Fernanda Young, em sua análise sobre o feminismo, ignorou variáveis que não a serviam em sua viajem pelo controverso de alto ibope. ______ texto: Mirna Wabi-Sabi

  • O Conceito de Capital Natural Está Nos Levando a Um Beco Sem Saída

    Embora essa linguagem (Capital Natural) possa ter sido desenvolvida com o intuito de comunicar o custo dos danos ambientais de forma que a indústria possa entender as perdas financeiras em não preservá-las, o resultado acaba sendo a utilização de tempo e recursos para nos levar a um beco sem saída. Durante décadas, a comoditização da natureza e da agricultura em detrimento do planeta e da população – seja de humanos, animais ou plantas – tem sido criticada pela comunidade científica. O desmatamento desenfreado ameaça toda a vida na Terra, e a maioria dos danos causados ​​aos ecossistemas no Brasil, a região de maior biodiversidade do mundo, é devido a indústrias que não satisfazem as necessidades humanas imediatas, como comida e água potável. Em vez disso, elas são direcionadas para combustível, ração para gado, óleos e assim por diante – todos os quais dependem intensamente de pesticidas. A agricultura certamente pode ser vista como um processo natural, mas a industrialização dela, principalmente através do uso de pesticidas perigosos, é bem mais difícil de descrever como tal. A pesquisadora Larissa Bombardi argumenta que a conversão da produção de alimentos em ‘commodities’ é feita por meio do “uso massivo de agrotóxicos” (2017). Enquanto isso, “ o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos desde 2008”; seu “consumo aumentou 190% na última década”. Em uma das suas publicações mais importantes, a pesquisa Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, o Atlas do Agrotóxico, Bombardi mostrou que os “30 milhões de hectares utilizados – ou desmatados – para o cultivo de soja no Brasil são o destino de mais da metade (52%) dos agrotóxicos vendidos no país. Ao considerar que essa soja é em sua esmagadora maioria (95,5%) transgênica e seu principal papel na indústria alimentícia é ser transformada em matéria-prima para a pecuária, podemos, sem dúvida, categorizá-la como uma commodity . Portanto, à medida que mais dados sobre os perigos dos pesticidas e do desmatamento são acumulados, um país megadiverso como o Brasil não apenas fracassa em desacelerar o processo de mercantilização de recursos naturais, mas o acelera. Os dados que descrevem os danos ambientais e suas repercussões são bem conhecidos por acadêmicos e jornalistas, mas não foram suficientes para provocar mudanças significativas. Possíveis soluções para esse uso insustentável da terra pelo agronegócio foram debatidas em cúpulas de líderes mundiais; tratados foram forjados, assinados e promovidos. Mas ainda nos vemos avançando cada vez mais rápido em direção à obliteração de ecossistemas naturais pelo planeta. Em seu artigo de 2021 , “Geografia da Assimetria: o ciclo vicioso dos agrotóxicos e do colonialismo na relação comercial entre o Mercosul e a União Europeia”, Larissa Bombardi destaca quantos agrotóxicos são fabricados na Europa, depois usados ​​para produzir ‘commodities’ no Brasil, que são então vendidos de volta aos europeus. Os Países Baixos, por exemplo, consomem bilhões de euros em sucos de frutas do Brasil, cuja produção depende de substâncias não apenas mortais e proibidas na União Europeia, mas também fabricadas e vendidas por seus membros. “ Nos últimos dez anos, 56 mil pessoas foram intoxicadas por agrotóxicos usados ​​na agricultura brasileira. O país registra uma média de 5.687 casos desse tipo de intoxicação por ano, o que equivale a 15 pessoas intoxicadas por agrotóxicos todos os dias”, afirma ela. Nesse cenário, agricultores brasileiros são os que mais sofrem com esse ciclo desequilibrado de distribuição de recursos, lidando com problemas de saúde que vão de intoxicação a câncer e ideação suicida. Em seu Atlas de 2017, Bombardi argumenta que os números de intoxicações por pesticidas em todo o país são subnotificados a uma taxa de 1 a 50 – para cada 1 caso relatado, uma média de 50 possivelmente não são (página 54). Quase metade dos casos notificados foram suicídios (40%, página 55). Foi demonstrado que os pesticidas desempenham um papel em “Transtornos Psiquiátricos Menores”, como depressão, e diz-se que as dificuldades financeiras entre os agricultores exacerbam esses sintomas. Como uma possível solução para esta crise, grandes organizações internacionais, como as Nações Unidas (Sistema de Contabilidade Econômica Ambiental), investiram na ideia de “Capital Natural” – uma ferramenta no campo da economia para levar em consideração práticas comerciais ambientalmente insustentáveis ​​em suas avaliações de risco. Ela oferece um sistema, um algoritmo, para chegar a um número ou preço. Este sistema leva em consideração o potencial de destruição ambiental de um negócio ou comércio, e o número calculado simboliza a correlação entre o dano à biodiversidade e o dano à margem de lucro desse negócio. O documento intitulado “Exposição ao risco de Capital Natural” , financiado por um ministério alemão de “desenvolvimento” econômico, composto principalmente de jargão para potenciais investidores do setor agrícola, revela quanto do obstáculo para chegar a uma solução está nas atitudes de pessoas poderosas e não na evidência do problema. Em outras palavras, mais esclarecedor do que os dados do relatório é a cultura que permite que esses dados persistam numa direção apocalíptica. Na página 79, sob o subtítulo Poluentes da Água, podemos ler que: “Para valorar os impactos sobre a biodiversidade, um estudo deve definir a biodiversidade, quantificar as perdas de biodiversidade por emissões de substâncias tóxicas por meio de modelos de dispersão e deposição e, em seguida, atribuir um valor monetário a essas perdas”. Esse estudo resulta em, por exemplo, uma fórmula que estima “o custo monetário por quilograma de substâncias tóxicas depositadas em ambientes de água doce”. A primeira variável é “disposição a pagar para restaurar”, baseada na “riqueza de espécies” da área. Portanto, o “grau” de biodiversidade de uma área influenciará o preço associado à sua potencial destruição. Não é tanto uma questão de saber se o dano está sendo causado e o seu escopo, para que possamos minimizá-lo. É uma questão de quanto estamos dispostos a pagar para continuar destruindo. Capital natural é beco sem saída? Quantificar e colocar um valor monetário no contexto da perda de biodiversidade e da saúde humana é bastante revelador das atitudes em relação ao assunto em questão. Embora essa linguagem possa ter sido desenvolvida com o intuito de comunicar o custo dos danos ambientais de forma que a indústria possa entender as perdas financeiras em não preservá-las, o resultado acaba sendo a utilização de tempo e recursos para nos levar a um beco sem saída. Como conceito, o 'Capital' Natural é contrário ao que ambientalistas vêm tentando alcançar há décadas, e é, também, contrário à natureza do capital. Se não bastassem os intermináveis ​​debates entre líderes mundiais e acordos globais fracassados, uma quantificação do custo de vidas está acontecendo por trás de pilhas de papéis e transações financeiras. O valor dessas vidas, tanto humanas quanto mais que humanas, é transformado em variáveis ​​num algoritmo projetado para estimar seu custo para indústrias de bilhões de euros. Na prática, os dados evidenciam que o ‘Capital Natural’ não funciona para minimizar os danos causados ​​ao planeta e à saúde humana. ‘Comoditizar’ um problema causado pela comoditização é como tentar despoluir a água com substâncias tóxicas. Infelizmente, isso não é uma metáfora, realmente acontece. A Agência Pública revelou que mais de 700 cidades brasileiras possuem águas com níveis de toxicidade acima dos limites legais, que são consideravelmente superiores aos limites europeus. Mais da metade desses contaminantes, que incluem substâncias radioativas, pesticidas, matéria orgânica e inorgânica, são subprodutos do tratamento de água. Para aqueles que optam por legumes e frutas orgânicas ou veem o valor deles para a saúde, o tratamento da água está além do escopo de influência individual. Lavar uma maçã antes de mordê-la pode piorar o problema. A fiscalização da qualidade da água por instituições governamentais é fraca e, se os testes forem feitos, os resultados muitas vezes são ocultados do público. Assim, a população é negada não só água limpa, mas também informações sobre essa água. Ao mesmo tempo, ter acesso a essas informações está longe de ser suficiente para induzir mudanças. Quando e se pessoas influentes no setor agrícola optarem por implementar algoritmos de “Capital Natural” para atribuir um preço ao seu potencial de destruição ambiental, talvez elas estejam dispostas a aceitar o risco porque sabem que são os agricultores que pagam o maior preço. Aqueles que estão adoecendo e morrendo agora não são os que analisam os relatórios de avaliação de risco e aprovam esses projetos. Nem todos nós temos o poder de direcionar as agroindústrias multinacionais para uma direção mais sustentável, mas todos nós estamos pagando pelos danos que elas causam em algum nível. O que podemos fazer é não perder tempo e energia tentando adotar a linguagem de quem entende muito bem a nossa, mas opta por não ouvir. Texto por Mirna Wabi Sabi Imagens por Luana Fernandes

  • Vírus E Colonização: Nossa Relação Com Os Mosquitos

    Parece que vivemos em tempos sem precedentes e, de fato, ninguém vivo já testemunhou uma pandemia viral dessa magnitude. Esta não é, no entanto, a 1ª pandemia viral da história, razão pela qual os comentaristas políticos internacionais traçaram paralelos com outras como SARS, Ebola, Influenza etc. Porém, com base em onde moro — Niterói — o paralelo que se destaca é com infecções transmitidas por mosquitos; Dengue, Chikungunya, Febre Amarela e assim por diante. As campanhas de saúde pública sobre a prevenção da Dengue no Brasil foram constantes ao longo da minha vida, e nunca me ocorreu ou a ninguém ao meu redor questionar sua mensagem — mosquitos transmitem a doença, e água limpa estagnada é o que eles precisam para proliferar. Portanto, todos devem fazer o possível para minimizar esses vetores de doenças, já que o mosquito nascido em sua casa não respeita limites de propriedade e se alimenta de qualquer pessoa. Isso nunca se tornou uma questão partidária, a ciência por trás disso não foi questionada e a negligência com os requisitos de saúde pública é desaprovada. Apesar de não ter aprendido a distinguir entre larvas de mosquito e de outros animais, e de suspeitar da autoridade governamental, nunca me ocorreu questionar a ciência por trás do ciclo de vida de um mosquito transmissor de doenças. Sou uma mulher que mora sozinha, e o fiscal da Dengue é o único homem desconhecido que bate na minha porta e permito que entre na minha casa. Cada pequeno corpo de água artificial que vejo vem com um sinal de perigo, e desenvolvi memória muscular ao virar recipientes que coletam água. Em 2008, a National Public Radio dos EUA publicou um artigo descrevendo os mosquitos como “Viet Congs da natureza”; defensores “das samambaias, borboletas, besouros e formigas da humanidade”. Na época, achei que fazia sentido. As cidades crescem, substituem a floresta, e os mosquitos são o incômodo que resta. Mas após uma reflexão mais aprofundada, especialmente no contexto do COVID, a analogia parece inepta. Desde quando os vietcongues não fazem parte da humanidade e a humanidade não faz parte da natureza? Mais importante ainda, não já havia humanos vivendo na floresta antes dos mosquitos começarem a tentar repelir a humanidade da “natureza”? Como os povos indígenas lidavam com os mosquitos infestados de vírus? A resposta é: não lidavam. Não havia Dengue antes da colonização. É amplamente reconhecido que infecções virais foram usadas como armas contra civilizações nativas por colonos, o cobertor de catapora como o exemplo mais notório. O Aedes aegypti, o mosquito que transmite a Dengue, Chikungunya, Zika, Febre Amarela e outros vírus, veio como ovos na água trazida em navios da África no século 16. No século 18, houve surtos de infecções em 3 ou mais continentes ao mesmo tempo. Bem, estamos aqui, agora, ainda lutando para manter esse vírus sob controle. A abordagem tem sido tornar nosso ambiente urbano pouco acolhedor para essas criaturas. Significando: sem excesso de plantas que lhes dão sombra e bloqueiam a brisa que os arrastam; sem matéria orgânica porque contêm açúcares vegetais dos quais os mosquitos se alimentam; sem superfícies irregulares e sujas que possam reter o líquido onde eles depositam ovos. Infelizmente, isso também leva à expulsão de qualquer outro ser vivo além dos humanos. Sem plantas também significa sem borboletas; nenhuma matéria orgânica também significa ausência de minhocas e fertilidade para as plantas; sem água também significa sem sapos e libélulas. O paradoxo é a necessidade de mais água, plantas e matéria orgânica para atrair mais animais que são predadores naturais de mosquitos e suas larvas. A biodiversidade tem um efeito cascata positivo, onde a água atrai mosquitos, que atraem sapos que comem mosquitos. Se adicionarmos à mistura besouros, pássaros, aranhas, lagartos, caracóis, formigas, borboletas, libélulas, minhocas, aranhas d'água, etc., podemos ver que os mosquitos vêm sozinhos quando há um pneu aleatório tomando chuva na beira da estrada. De certa forma, é como o princípio de uma vacina — não evite o problema, exponha-se com segurança a ele e encontre um equilíbrio orgânico saudável para combatê-lo. O equilíbrio não é algo simples de se alcançar, muito menos na escala de um planeta inteiro. Talvez a mudança em direção ao equilíbrio que podemos alcançar esteja no âmbito de nossas vidas pessoais e numa mudança de perspectiva. Isso já é muito trabalho, mas é onde toda grande ideia começa. Questionar a autoridade e suas instituições pouco confiáveis ​​não vem à custa do aprendizado de biologia. Na verdade, o questionar depende desse conhecimento biológico — de que outra forma reconheceremos as falácias do sistema e reuniremos as ferramentas para falar a verdade e demandar a coerência? _________ MIRNA WABI-SABI é editora-chefe da Plataforma9P9, autora do livro Anarco-Transcriação, e comentarista política através da escrita, edição, ensino e tradução.

  • O Que Laguinhos Podem Nos Ensinar

    Pessoas em geral sabem muito pouco sobre a natureza e seus ecossistemas locais. Laguinhos têm muito a nos ensinar sobre tudo isso. Hoje em dia, ficou mais fácil imaginar um mosquito geneticamente modificado para ser estéril do que aprender quais animais em nossa área são seus predadores naturais. Isso provavelmente ocorre porque é mais fácil votar num político que possa endossar pesquisas e implementar políticas contra a dengue do que observar e estudar o comportamento da vida selvagem local. A maioria de nós não tem tempo e recursos para este tipo de pesquisa, mas, o mais importante, falta-nos interesse ou motivação (quem sabe o que veio primeiro). Não precisamos olhar de perto, no entanto, para ver que as políticas governamentais e políticos são falhos e equivocados, especialmente no que diz respeito a práticas ambientalmente sustentáveis. Uma alternativa a continuar contando com eles poderia ser tomar certas medidas nós mesmos, mesmo que no microcosmo de nossas próprias vidas. Felizmente, passei a pandemia socialmente isolada numa casa com um jardim, numa área do Brasil conhecida pela vegetação rochosa de Mata Atlântica, e pude trabalhar remotamente. Tempo e recursos estavam disponíveis para mim, e eu aproveitei isso para começar a fazer todas aquelas coisas que pensamos em fazer, mas nunca temos tempo. Uma horta, compostagem, pão, tomar sol, exercícios, e assim por diante. Mas a saga do laguinho começou mais tarde e me consumiu de uma forma inesperada. Rapidamente, ficou claro para mim que construir um mini lago é uma lição de biologia difícil e valiosa. Quanto mais você aprende, mais percebe o quão pouco sabe. Tudo começou com as visitas noturnas de um sapo à tigela de água dos cachorros. Depois da primeira vez em que o vi, todas as noites na mesma hora, sua presença era certa. E toda vez que o via, agora batizado de Danny DeFrog (em homenagem a Danny DeVito), pensava em como minha vizinhança é hostil à vida selvagem — riachos são poluídos, árvores são cortadas para dar espaço para estruturas de concreto e o crescimento espontâneo de plantas é considerado “sujeira”. Depois de algumas semanas, decidi fazer um mini lago para o Danny, o que me levou ladeira abaixo. Como posso fazer um lago sem criar um ponto de proliferação de mosquitos? Como posso fazer isso sem arrastar uma extensão pelo quintal para ligar um filtro elétrico? As perguntas nunca pararam desde então. Deixe-me contar um pouco do que aprendi — o que está longe de ser tudo o que há para se saber. As lojas de aquários são meio deprimentes. Os peixes são muito baratos, tratados como descartáveis, e os sistemas são entregues como ambientes higiênicos controlados, onde o ser humano pode ter o maior controle possível sobre as variáveis. Na natureza, porém, existem infinitas variáveis ​​a serem consideradas, todas imprevisíveis e diversas. Basicamente, vários tipos de peixes comem larvas de mosquitos, nem todos esses peixes existem na natureza. Muitos são raças domesticadas, como cães e gatos. Portanto, criar um biótopo de peixinho dourado é um oximoro. No entanto, eles precisam de um sistema de filtragem e a maioria precisa de aeração de água. Na natureza, não há bombas e filtros fazendo isso para os peixes, mas recriar este ambiente natural é incrivelmente difícil e uma lição poderosa sobre a natureza. Resumindo — o peixe faz cocô na água, as bactérias decompõem esses resíduos, transformando-os em nutrientes. Esses nutrientes, por sua vez, são consumidos por plantas aquáticas e algas. Quanto mais as plantas consomem esses nutrientes, menos nutrientes sobram para as algas se alimentarem, mantendo-as sob controle e a água clara. Algumas plantas aquáticas, principalmente as que estão totalmente submersas, também oxigenam a água. Este é o princípio básico. O truque é encontrar um equilíbrio entre esses elementos. Tomar consciência desses elementos, intensamente presentes em nosso dia a dia, é esclarecedor. Percebemos a qualidade da água e do ar, com que frequência chove, com que frequência e onde o sol brilha e com quais seres vivos compartilhamos este espaço. Por exemplo, seixos, rochas e superfícies ásperas debaixo d'água são boas para hospedar muitas bactérias, mas seixos muito pequenos podem ser comidos por peixes maiores, e algumas rochas podem liberar nutrientes na água que alteram seu pH. Níveis e mudanças drásticas de pH estressam os peixes (às vezes causando a morte), e é possível identificar mudanças em seu comportamento. A água da torneira mata os peixes; há muitos produtos químicos. Há todo um processo de espera pela evaporação dos produtos químicos ou de tratamento da água de diferentes maneiras. Até a água da chuva pode ser contaminada pela poluição do ar. À medida que a água evapora com o calor e o sol, a água do lago fica mais dura, mais densa de nutrientes e o pH é alterado com o tempo. Por outro lado, as plantas aquáticas precisam do sol, e você pode ver quando elas tiveram muito sol; as folhas ficam amarelas. Trocas parciais de água a cada poucas semanas são ótimas para manter o lago claro e limpo, assim que você garanta de que não está descartando ovos, ninfas e outros pequenos animais que criaram um lar neste lago. E por parcial quero dizer: nunca substituir mais de 40% do conteúdo total de água de uma vez, para não perturbar o ecossistema muito rápido. Água de peixes rica em nutrientes pode ser usada para regar plantas em vasos, e água tratada limpa pode ser usada para encher o lago de novo. Tornar-se consciente do equilíbrio entre o brilho do sol e a chuva no que se refere a outros seres além de você é muito enriquecedor. E, acredite em mim, muitos outros seres aparecerão num lago natural. No primeiro mês, eu estava vendo ovos e minhocas, tirei fotos e tentei identificar o que eram. Os peixes comeram as minhocas e os ovos viraram caracóis. Os caracóis comem todos os tipos de restos de matéria orgânica e ajudam a limpar o lago (assim como os camarões), e alguns até oxigenam a água. Mas se eles morrem, fica um cheiro ruim, e eles podem se reproduzir fora de controle. As carpas gostam de comer esses pequenos caramujos, com a concha mais macia. Mas os peixes menores não. As sanguessugas, no entanto, vão manter a população de caramujos sob controle, sugando-os até secar e deixando apenas a concha. Você pode distinguir uma sanguessuga de uma minhoca pela maneira como ela se move e sua forma — elas têm cabeças pequenas e extremidades traseiras mais largas, movendo-se como acordeões. Se um grudar na sua pele, não se preocupe, a maioria não é prejudicial para humanos e peixes. Essas sanguessugas aparecem do nada e podem se tornar ainda mais populosas do que os caracóis. Nesse caso, você pode usar folhas secas de amendoeira para manter sua população sob controle. Debaixo d'água, essas folhas liberam nutrientes que controlam a qualidade da água. O ser mais empolgante que testemunhei fazer um lar no lago foi uma libélula. Um dia, notei uma voando, mergulhando a cauda na superfície da água repetidamente. Aparentemente, ela estava botando seus ovos ali. Havia tanta coisa que eu não sabia sobre o ciclo de vida de uma libélula e pude testemunhar de perto. Acontece que as libélulas passam a maior parte de suas vidas debaixo d'água, como ninfas. As ninfas da libélula comem sanguessugas, larvas, girinos e até peixes pequenos. Começam como ninfas minúsculas, transparentes ou verdes, com patas, cabeça e cauda. Ela eventualmente se transforma em uma coisa de seis pernas, com aparência de uma barata debaixo d'água. Eventualmente (no meu caso, quase um ano depois) ela sai de sua pele como uma cobra, e voa para acasalar e colocar ovos em outro lago (se elas não forem comidas por pássaros primeiro, claro). Além disso, é um animal tão antigo que coexistiu com dinossauros. Seus ancestrais são de mais de 200 milhões de anos atrás! Às vezes, você tenta resolver um problema e cria outro. Um dos meus peixes morreu por causa do que parecia ser uma infecção fúngica. Havia manchas brancas como algodão no lago e no peixe. Embora uma pequena quantidade de sal marinho puro na água possa ajudar a combater a erupção de bactérias e fungos (mesmo em lagos de água doce), esse tratamento com sal matou minhas plantas aquáticas. Várias coisas podem matar as plantas. Peixes mordiscam as raízes, lagartas e vermes se alimentam das folhas, falta de sol, etc. Claro, eu quero que as borboletas sobrevivam; o truque é ter plantas suficientes, então você pode sacrificar uma ou duas para elas. Na verdade, as plantas aquáticas não são fáceis de encontrar e costumam ser mais caras do que os peixes. Transportá-las por longas distâncias é complicado e, quando você encontra algo, geralmente é o mesmo tipo de espécie (útil, embora invasiva). Existem vários tipos. Algumas flutuam; algumas enraízam-se apenas em água com folhas secas; algumas enraízam em substrato no fundo do laguinho ou em vasos submersos; algumas precisam ser completamente submersas e são impedidas de flutuar por rochas, seixos ou substrato. O substrato é complicado porque pode facilmente afetar a água, seu pH, sua clareza, etc. Então, você tem que encontrar uma maneira de cobrir o solo rico em nutrientes com areia e pedras, para que não faça bagunça na água. A variedade é valiosa porque cada planta tem suas características e comportamento, e pode desempenhar papéis diferentes e importantes. A batata-doce, por exemplo, é ótima para remover nitratos da água. Um terço dela fica submersa e o resto acima da água. Rapidamente, as raízes crescem, e os caules e folhas sobem. Mas depois de 2 meses é melhor remover, pois, se apodrecerem, os peixes podem morrer. Nesse momento, pode-se destacar os caules e colocá-los de volta na água, descartando o restante na compostagem. Novas raízes vão crescer e o processo pode ser repetido a cada 2 meses. Existem também várias plantas domésticas que crescem em vasos que podem crescer facilmente apenas em água, como a planta Aranha, Filodendros, Lírio Flamingo, Caladium bicolor, Syngonium podophyllum, Bambu da sorte, a família de plantas Cyperus e assim por diante. Sem falar em musgo. Existem tantos tipos e são difíceis de cultivar, mas são fantásticos para a qualidade do ar em torno do seu lago, o que é importante para os peixes, uma vez que precisam de oxigenação também. Um japonês chamado Shinya , que cria biótopos e mossários com Medakas, foi meu primeiro ídolo de minilagos. Os tipos de plantas e peixes, sem falar na localização, são literalmente do lado oposto do mundo do meu. Mas, embora fosse impossível imitar seu processo, foi incrivelmente útil e inspirador ver o trabalho dele. As informações que compartilho aqui são baseadas na minha experiência pessoal, num contexto geográfico e social específico, portanto, não podem ser reproduzidas de forma idêntica em nenhum outro lugar. Mas esse é o problema de sair do paradigma da industrialização — a natureza não é uma linha de montagem. Não pode ser entregue, só pode ser descoberta, e a jornada é nossa. Podemos ser incapazes de controlar diretamente os níveis de poluição do ar de nossas cidades, mas conhecer e aplicar os fundamentos disso ao nosso reino pessoal e comunitário é um primeiro passo valioso. No mínimo, pode mudar a forma como nos sentimos e nos apresentar a novos conhecimentos que são imediatamente usados ​​e colocados em prática. Mais importante ainda, essas microiniciativas podem nos ajudar a nos conectar com nosso ambiente natural de uma forma mais saudável e sustentável, e podem expandir e melhorar nossa perspectiva do lugar onde vivemos. ÍNDICE AGUAPÉ Esta planta aquática flutuante é considerada invasora. Na natureza, ela pode se espalhar e cobrir toda a superfície de um corpo d'água. Seu excesso costuma ser usado como adubo verde. Por outro lado, sua incrível capacidade de filtrar a água a torna útil no tratamento de esgoto. Ela também tem belas flores, embora de curta duração. ALFACE D'ÁGUA Esta planta aquática flutuante reproduz-se incrivelmente rápido e tem a capacidade de oxigenar a água e também de filtrar. Precisa de sol, e depois de dias chuvosos, elas podem precisar que se apare as mudinhas. BATATAS DOCES 1/3 na água, 2/3 acima da superfície. As raízes vão crescer, removendo nitratos da água, enquanto as folhas se espalham como vinhas. Remova após 2 meses para evitar o apodrecimento. Retire os caules e coloque-os de volta na água, descartando o restante no composto. Novas raízes vão crescer e o processo pode ser repetido a cada 2 meses. FOLHAS DE AMENDOEIRA SECAS Lave as folhas secas suavemente com uma esponja e água corrente, para minimizar a contaminação de coisas desconhecidas na sujeira. Deixe secar, guarde em potes, e uma vez por mês coloque uma folha inteira para cada 40 litros de água no lago. À medida que se dissolve e se degrada, ela ajuda o sistema imunológico dos peixes, reduz o estresse, previne doenças, tem propriedades antifúngicas e antibacterianas e reduz naturalmente o pH. CARAMUJOS Os caramujos são bons em comer o excesso de matéria orgânica e sobras de ração para peixes e ajudam a manter o tanque limpo. Eles também oxigenam um pouco a água, a menos que morram e apodreçam no fundo do lago, deixando o local fedido também. Alguns tipos se reproduzem muito rápido. A carpa gosta de comer os pequeninos com a casca ainda mole, o que mantém a população sob controle. No entanto, peixes menores como guppy's e platy's não os comem. SANGUESSUGAS Sanguessugas comem caramujos. Elas se parecem com minhocas, mas com cabeças pequenas e costas mais largas, movendo-se como acordeões em vez de chacoalharem que nem minhocas. Carpas e Koi também adoram comer isso, comem quase tudo. Mas, novamente, com os peixes pequenos, temos que ficar de olho no quão equilibrada está a população de caramujos / sanguessugas. Se houver muitos caramujos e apenas algumas sanguessugas, deixe para lá e as sanguessugas vão fazer seu trabalho aos poucos. Se os caracóis começarem a desaparecer e muitas sanguessugas, maiores, começarem a dominar a área — experimente colocar novas folhas amendoeira secas. LIBÉLULAS As ninfas da libélula comem sanguessugas, larvas, girinos e até peixes pequenos. Se você vir uma libélula voando e mergulhando sua bunda na superfície da água, ela está deixando cair ovos. Eventualmente, você verá uma ninfa pequena, transparente ou verde, com pernas, cabeça e cauda. Ela eventualmente se transforma em uma coisa de seis pernas, com aparência de uma barata debaixo d'água. Eventualmente, ela sai de sua pele como uma cobra e voa, para acasalar e colocar ovos em outro lago. Ela passa a maior parte de sua vida debaixo d'água e é um animal tão antigo que coexistiu com dinossauros. SAPOS Eles vêm, bagunçam as plantas, fazem cocô na água, mas são ótimos — comem mosquitos. Eles podem botar ovos e os girinos saem, mas nem sempre sobrevivem, pois, pode haver predadores, como os besouros subaquáticos e as ninfas libélulas. Por Mirna Wabi-Sabi Read the original in English at Abeautifulresistance.org

  • Ioga como atitude decolonial do corpo humano

    Por Mirna-Wabi-Sabi “Perdemos a ioga para o oeste, tudo bem. Ioga era uma atividade chata e passiva que as pessoas faziam de pijama. E aí os americanos se envolveram. E se tornou um esporte brutal.” (Zarna Garg) É verdade, parte da minha prática de ioga é abordar minha tendência de transformá-la num desafio radical ou numa competição acirrada contra mim mesma. Como ela disse, porém, está tudo bem. Os indianos sabem que não é do interesse de ninguém guardar a ioga ao ponto de ninguém no exterior poder praticá-la. Eles sabem que o ioga tem valor para a humanidade. Não é a única coisa de valor. Mas tem um imenso potencial para nutrir corpos e mentes. Me fascina como a ioga pode alcançar até as pessoas menos espirituais. Ainda estou para conhecer alguém que pense que ioga e meditação são uma farsa. Ou que tratar a mente e o corpo dessa forma é errado. No entanto, ela foi proibida em vários lugares (como no Alabama), mas suspeito que isso seja um sinal da sua eficácia, e não do contrário. Para quem não sabe, provavelmente não será uma surpresa descobrir que no período colonial britânico na Índia a ioga foi proibida. No primeiro encontro com os iogues, os europeus sentiram bastante repulsa pelo que não entendiam – como os iogues eram vistos pelos habitantes locais como iluminados, enquanto para eles parecia que essa condição era o resultado de algum tipo de ilusão. Não os comparar com os bruxos europeus da época foi, contudo, um sinal de respeito. (Página 36 de “Yoga Body” de Singleton, 2010.) Para os britânicos, cuja forma de exercício era trabalhar, cavar buracos, brincar com armas e assim por diante, a Índia deve ter sido um espetáculo e tanto. Um cara nu, de cabelos compridos, coberto de cinzas, meditando com os braços erguidos debaixo de uma árvore. Outro em parada de mão por horas a fio, e alguns carregando correntes. Todos sendo elogiados pelos colegas. Chocante foi o quão doloroso deve ter sido ficar fixado naquelas posições nada naturais. Era uma forma de loucura, certamente. “[O faquir-iogue] assume posições totalmente contrárias à atitude natural do corpo humano” (38). De acordo com a tradição supremacista europeia, presumia-se que os iogues eram tudo menos “seres racionais” (37). Nenhuma distinção foi feita entre as diferentes “ordens mendicantes” (37), pois, aos olhos do britânico, todas eram vegetativas, vagabundas, preguiçosas ou mesmo vaidosas. Como tal, para os cristãos, as posturas de ioga tornaram-se símbolos de quão absurda era a espiritualidade indiana. À medida que a perspectiva ocidental era insidiosamente injetada na sociedade indiana, os iogues eram marginalizados e muitas vezes forçados a fazer de si próprios um espetáculo para a sua subsistência, o que consolidou ainda mais o estigma. Mas nem todos foram subjugados por essa artimanha dos protestantes. “Bandos altamente organizados de iogues militarizados” tornaram-se uma ameaça espetacular à ordem colonial, causando danos financeiros significativos à Companhia das Índias Orientais. “A antipatia europeia pelos iogues não se devia apenas a sensibilidades morais ofendidas: os iogues também eram pessoas difíceis de pôr em ordem.” (39) E foi então que a lei foi usada para acelerar a mudança cultural ocidentalizante que os britânicos precisavam para continuar a lucrar na região. A ioga foi proibida. Além de andar nu e portar uma arma, o que, segundo o autor de Yoga Body, era a estética desses soldados iogues. (40) Apesar da marginalização e das proibições, durante os dois milênios e meio que os humanos praticam ioga (pelo menos), a prática continua a espalhar-se e a prosperar, compreensivelmente. Há uma ciência antiga nisso, que a ciência ocidental ainda está tentando compreender ou sistematizar. Quando uma conexão entre ioga e medicina começou a ser feita no campo médico, possivelmente em 1850 pela publicação A Treatise on the Yoga Philosophy, irrompeu uma resistência desenfreada a ela, com queima de livros e tudo (52). De alguma forma, foi considerado ofensivo sugerir que a filosofia da ioga realmente correspondia à realidade da anatomia humana. No entanto, a colonização deu origem a um estudo da ioga a partir de uma perspectiva miscigenada, literal e figurativamente, e já no primeiro encontro. Os anglo-indianos e os britânicos “indianizados” serviram de ponte entre a Índia e o Ocidente, e a influência fluiu em ambos os sentidos. Poucos povos colonizados podem dizer isso sobre sua experiência com seu principal colonizador. A influência que o Brasil teve sobre Portugal, por exemplo, é incalculavelmente pequena em comparação com a influência deles sobre nós. Embora eu saiba que os poderes constituídos na Índia provavelmente adotaram algumas das piores características do modus operandi europeu, nomeadamente a intolerância étnica e religiosa, não posso deixar de observar com admiração a resistência da civilização indiana. Apesar de ter uma prática espiritual distinta, tomo medidas para expressar meu respeito aos porta-vozes indianos do legado do ioga. Porque, sem eles, eu não estaria aqui colhendo os enormes benefícios desse conhecimento. É um pouco como citar suas fontes, em vez de plagiar. A simbiose entre corpo e mente é destacada pelo ioga de uma forma que revela muito sobre quem somos, e também sobre o que estamos passando nesse momento – é filosófico porque é físico, e vice-versa. Aqui estão alguns insights do dia a dia que a ioga me deu nas últimas semanas: Aceitação. De si, dos outros e do mundo. Mesmo que as pessoas e as situações possam nos irritar, ainda precisamos aceitar o que está acontecendo para lidar com isso de forma eficaz. Poder. É uma questão de disciplina e força. Não vamos tirar o poder de alguém ou de alguma coisa, vamos construí-lo para nós mesmos. Paciência. Apenas seja paciente. Algumas coisas levam tempo e melhoram com o tempo. Outras só precisam ser feitas, e a impaciência não ajudará a realizá-las. Combata a hiperestimulação. O tédio não é seu problema. Nessa era digital, somos constantemente bombardeados com conteúdo. A verdadeira ameaça à nossa satisfação não é o tédio. A necessidade de se entreter constantemente com conteúdo aleatório é a ameaça. Você pode ser honesto sem ser cruel. É o que é. Qual a diferença entre “é o que é” e aceitação? Aceitação é abraçar situações, pessoas, onde você está e com quem. “É o que é” é uma aceitação da Verdade, num sentido amplo. Aceite o fato de que a Verdade será e deve ser revelada. O amor é mais importante que a independência. Ser financeiramente independente é um ótimo objetivo. Mas não à custa da formação de laços de amor, onde é natural confiar e contar um com o outro. Não busque a perfeição. Se esforce para melhorar. Não há problema em cometer erros. Então, também não há problema em cometer erros em público. Não leve para o lado pessoal. Mesmo que seja pessoal. Nada existe no vácuo e nada é para sempre.

  • Eco-barreiras e o resgate do equilíbrio entre as espécies no planeta

    Acesse o 'Levantamento de resíduos sólidos na Eco-barreira João Mendes' aqui. A poluição dos oceanos ameaça a sobrevivência de todos os animais marinhos, e a nossa também. É difícil compreender a magnitude do impacto que o lixo tem nas nossas vidas quando não vemos para onde ele está indo, e como o caminho que leva à extinção de tantas espécies aquáticas afeta a vida humana. Civilizações nativas que uma vez sobreviviam em simbiose com a fauna e a flora de suas regiões, agora não enxergam a mesma diversidade de vida e mutualismo entre as sobrevivências. O mundo não é o mesmo. A questão é como seguir em frente nesse paradigma. Uma ferramenta para entender qual lixo percorre qual caminho em direção ao oceano viabiliza a identificação da fonte e do percurso do problema de poluição de lixo – a eco-barreira. Esse entendimento nos ajuda a atuar na fonte e no sintoma do problema causado por resíduos sólidos flutuantes descartados pela população urbana. Eco-barreiras são barreiras na foz, ou ponto de desaguamento, de rios em megacidades. Um estudo de 2011 por Marcos Freitas aponta que o crescimento acelerado de centros urbanos, aumento de consumo, sistemas de gerenciamento de água municipais e coleta de lixo inadequados contribuem para uma quantidade exorbitante de lixo descartado em rios. No contexto do Rio de Janeiro, apenas 3 eco-barreiras em 2008 coletaram mais de 100 toneladas de plástico, metal, madeira e papelão (M. Freitas 2011). Dados como esses são esperados, mas o interessante dessa pesquisa foi que identificou a fonte do problema como não sendo tanto “o aumento da geração de resíduos sólidos domiciliares” e sim o aumento do Produto Interno Bruto municipal. Ou seja, aumento de consumo de indivíduos não causa poluição nos rios tanto quanto o aumento de importação e exportação, gastos governamentais e investimentos empresariais. Instituições governamentais e empresas são mais ambientalmente irresponsáveis do que consumidores individuais, e isso desde 2011 só se tornou mais evidente. Hoje, há uma eco-barreira na foz do rio João Mendes, na região oceânica de Niterói, mantida por um grupo de indivíduos voluntários. Ela foi financiada pela ecoponte, uma companhia que gerencia a ponte Rio-Niterói, e tem interesse em ações de compensação de sua pegada de carbono. E a barreira é gerenciada por membros da organização AmaDarcy, cujo objetivo é proteger o meio ambiente natural e urbano através da preservação de áreas ecologicamente importantes na região da Serra da Tiririca. De acordo com um relatório gerado pelo grupo em fevereiro de 2023, “O João Mendes (JM) é um rio poluído, apesar de nascer cristalino dentro do Parque Estadual da Serra da Tiririca (PESET). Embora uma parte significativa dos esgotos da bacia hidrográfica do JM seja coletada e encaminhada à Estação de Tratamento de Esgotos de Itaipu (ETE Itaipu), que opera com uma vazão nominal de 164 litros por segundo, existe uma expressiva quantidade de esgotos que ainda não é direcionada para a ETE Itaipu e deságua de forma direta ou indireta no rio João Mendes e, consequentemente, na laguna de Itaipu (Reserva Extrativista Marinha de Itaipu-RESEX Itaipu), gerando a poluição do mesmo.” “A quantidade de resíduos sólidos (lixo) que vem sendo lançada no rio João Mendes semanalmente (cerca de 250 Kg) também contribui de forma significativa para poluição do rio João Mendes, evidenciando condições ainda precárias de saneamento. Desde setembro de 2022, a ONG AmaDarcy vem coletando lixo semanalmente na eco-barreira implantada no rio João Mendes, localizada próximo à desembocadura deste rio na laguna de Itaipu. A quantidade total de lixo coletado e ensacado pela AmaDarcy entre setembro de 2022 e janeiro de 2023 foi superior a 6 toneladas (mais de uma e meia tonelada por mês), evitando assim seu despejo na laguna de Itaipu e no mar (RESEX Itaipu). O lixo é em seguida retirado e levado pela Companhia de Limpeza de Niterói (CLIN) para uma destinação final adequada.” A relação entre poluição de esgoto e de lixo é evidente quando consideramos o crescimento urbano desenfreado, sem infraestrutura e instituições eficazes o suficiente para lidar com esse crescimento. Como voluntários, o foco do grupo em lixo flutuante faz sentido quando consideramos a distância que esse lixo viaja, e a dificuldade de controle desse fluxo sem essas barreiras – que não impedem o fluxo do rio, mas fixam resíduos da superfície até que uma equipe possa coletar. Essa coleta acontece semanalmente, e, quando possível, os resíduos são separados por material e pesados, apesar da poluição de esgoto na área apresentar uma ameaça aos voluntários e gerar a necessidade de cuidados vigorosos. Os dados registrados incluem não só tipo e peso do lixo, mas também as marcas dos produtos descartados, a altura do rio, e a quantidade de chuva no dia anterior e na semana da coleta. Volume ou Índice Pluviométrico é medido por milimetro de chuva por metro quadrado num certo local e período. Fonte: (A627, do INMET) Os materiais encontrados são plástico, vidro, metal, tecido, entre outros. Microlixo é registrado como uma categoria à parte, e significa um misto de pequenos resíduos como bituca de cigarro, microtubos de narcóticos, isopor fragmentado, outros plásticos e partes vegetais que ficam emaranhadas por esses resíduos. Tetra pak também é registrado à parte, pois são aquelas embalagens de composição mista entre metal, papel e plástico, muitas vezes usadas para produtos como leite, suco e molho de tomate. Há outros materiais identificados, porém não categorizados individualmente, como os ocasionais brinquedos, resíduos eletrônicos, lâmpadas, pneus, colchões, etc. Enquanto os resíduos não identificados são os sacos fechados encontrados na barreira que não são abertos por poderem conter materiais que causam riscos à saúde dos voluntários – como seringa, prestobarba, fralda, camisinha, papel higiênico usado, etc. Esses dados nos ajudam a identificar a fonte da poluição das águas, e nos conscientiza sobre nosso próprio consumo e descarte de resíduos. De acordo com a pesquisa de 2011 de Marcos Freitas, há uma correlação entre o aumento da renda familiar e o amento do lixo público, enquanto o lixo doméstico permanece na mesma faixa. Isso pode significar que o aumento do Produto Interno Bruto (e talvez contextos climáticos) leva a "maior consumo em áreas públicas". O que isso significa para nós e nossas práticas de consumo em áreas públicas? O que sabemos sobre as práticas de descarte lixo de empreendimentos que frequentamos e de coleta de lixo por conta de nossos municípios? O problema do descarte de lixo e da poluição dos oceanos tem muitas facetas. Há uma questão de administração institucional, que reflete nas decisões políticas de um município. A expansão urbana se torna nociva por conta do fracasso dessa administração política e interesses financeiros muito maiores do que o lar de cada família. Por isso, o Produto Interno Bruto municipal gera mais problemas ambientais do que o acúmulo de consumos individuais. Por outro lado, a conscientização da comunidade e o acesso à informação sobre a situação ambiental de suas vizinhanças pode não só melhorar práticas pessoais de consumo e descarte de resíduos, como pode também incentivar a população a demandar mais responsabilidade da administração pública e ações mais eficazes com a verba pública. No meio tempo, prevenir que toneladas de lixo acabem no oceano ajuda a começar um resgate da biodiversidade e do equilíbrio entre as espécies nesse planeta. _____ Por Mirna Wabi-Sabi

  • O DNA da poluição na baia de Guanabara

    Texto por Mirna Wabi-Sabi e fotografia por Fabio Teixeira Publicado dia 2 de agosto de 2023. Rio de Janeiro, baia de Guanabara, dia 1 de julho de 2023. O Painel Saneamento Brasil afirma que mais de 30% da população do Rio de Janeiro não tem coleta de esgoto (2021). Hoje, 18 mil litros de esgoto por segundo são despejados na baia de Guanabara, sendo que investimento estatal quadruplicou nos últimos 3 anos, chegando a quase 1 bilhão de reais. Os gastos são monumentais, enquanto os resultados são abismais, e esse fiasco seria fácil de explicar da perspectiva de corrupção e incompetência na gestão de recursos públicos. Porém, uma análise cultural e histórica explicaria o que causa esses sintomas nos processos administrativos da cidade. Os dados de gastos e níveis de poluição estão evidentes, assim como os perigos dessa poluição à saúde pública. Há pelo menos 20 anos se sabe, por exemplo, dos números alarmantes de Hepatite A em crianças em regiões de baixa renda do Rio de Janeiro. Mas esses números não levam a soluções por detentores de poder governamental. O problema não é falta de dinheiro ou ciência da seriedade da situação, e sim o legado do modelo Higienista. O movimento Higienista nasceu no Brasil no fim de 1800 e da Revolução Industrial. Com a formação de centros urbano-industriais durante a Revolução, houve um aumento massivo da população do Rio de Janeiro, e com ele o do caos, da pobreza, da poluição e da destruição ambiental. Esse movimento visava mitigar os sintomas metropolitanos com a implementação de modelos urbanos europeus, que essencialmente manufaturavam guetos. Ao usar como norte teorias médicas de cientistas da Europa, iniciativas foram promovidas por higienistas que segregavam a pobreza e destruíam o meio ambiente através do 'embelezamento' das cidades. Pois, o modelo ideológico europeu já era, e continuou sendo por centenas de anos, escravagista e extrativista. A cultura extrativista europeia lida com o meio ambiente não-europeu como fonte de recursos para seres humanos, sejam eles práticos ou estéticos. Isso nunca promove o equilíbrio dos ecossistemas locais, apenas promove lucro e altos padrões de vida para quem lucra. Por isso, a manufaturação do gueto garante a 'Higiene', como definida pelo movimento em termos de educação e saúde, de forma insular. O modelo Higienista é a manifestação da expressão 'varrer para debaixo do tapete'. Desde que a insalubridade urbana não fosse vista por elites nos centros, seria como se ela não existisse. Em outras palavras, é um sistema tão maduro quanto o jogo de peekaboo. Desde que cidades vieram a existir, a insalubridade urbana é uma questão de classe com repercussões ambientais e humanas desastrosas. No artigo "Movimento Higienista" na história da vida privada no Brasil, Edivaldo Góis diz que muitos dos higienistas enxergavam "a falta de saúde e educação do povo [como] responsável por nosso atraso em relação à Europa." Sendo que inúmeras doenças, costumes, e modelos de gestão vindos da Europa eram responsáveis por essa impropriedade. Um povo que promove a divisão de classe não comporta a realidade natural de que o ecossistema não respeita a segregação social. Mais cedo ou mais tarde, a poluição de uma porção do oceano ou de um corpo de água urbano se torna poluição nas praias nobres, e 18 mil litros de esgoto por segundo na baia de Guanabara é um problema de todo o mundo. Nos anos 90, 1 bilhão de dólares americanos foram gastos no programa de Despoluição da baia de Guanabara (PDBG) após evidências alarmantes de casos de Hepatite A em crianças em Duque de Caxias. Mesmo com financiamento massivo, de fonte global, os resultados foram horrorizantes. Centros de tratamento de esgoto foram construídos mas não eram funcionais, prestação de contas e pagamentos atrasados apontavam por péssima administração financeira do estado, centenas de milhões de dólares americanos foram desperdiçados em juros, e esse fracasso não pode ser atribuído apenas à burrice institucional. Agora estão sendo gastos, novamente, bilhões de reais em obras que já estão atrasadas para resolver esse problema de poluição persistente dos últimos séculos. Rio de Janeiro, entre 2015 e 2019. Saneamento em regiões de baixa renda é um desafio hoje em dia porque por mais de cem anos, a divisão de classe promovida pelo legado do movimento Higienista desincorporou esses espaços geográficos da "atividade de vigilância epidemiológica", assim como de fornecimento individual de recursos de saneamento. A ideia de que o que é privado existe em simbiose com o público, ao invés de resultar em investimento de recursos públicos em melhorias de ambientes privados de indivíduos com renda baixa, resultou em justificativas reacionárias para o eugenismo. Por isso que ao invés de investir em melhorias das estruturas dos lares familiares e individuais em regiões pobres, se investe num "cinturão" de captação de esgoto no entorno da baia. Isso significa que, o esgoto que sai dessas áreas é captado e impedido de afetar áreas nobres, mas o contexto individual dos moradores continua o mesmo. De acordo com um "estudo conceitual" sobre o cinturão, o obstáculo para a "universalização do esgotamento sanitário" é o custo. A estimativa no relatório é de 1900 reais por habitante, totalizando em mais de 33 bilhões de reais no RJ. Já que o financiamento de 1 bilhão de dólares nos anos 90 equivalia apenas a pouco mais de 5 bilhões de reais, o preço "supera em muito o aporte de recursos para o setor". Porém, 33 bilhões se refere ao custo para a população do estado, e o financiamento de 1 bilhão de dólares era voltado especificamente para a despoluição da baia de Guanabara. Os rios que mais poluem a baia de Guanabara permeiam a geografia de Duque de Caxias, chamados Sarapuí e Iguaçu. Se 1900 reais por habitante é uma estimativa confiável, com menos de 1 bilhão e meio de reais teria sido possível levar saneamento para toda a população de Duque de Caxias, que entre 1991 e 94 era menor do que 700 mil habitantes. Mas ao invés de propor estratégias certeiras, com foco no contexto e necessidades locais, o relatório logo faz comparações com os sistemas europeus e estadunidenses. Ao fazer isso, ele se revela descendente do movimento Higienista. A organização responsável pelo relatório, FGV CERI, explicitamente se posiciona como interessada num desenvolvimento infraestrutural centrado no crescimento econômico. Para eles, a regulação de infraestrutura no país, mesmo quando envolve o meio ambiente e a saúde pública, orbita um e somente um objetivo: "a atração de investimentos". Assim, a sustentabilidade fomenta a nação quando é econômico-financeira. Quantificar um problema socio-ambiental como o de poluição da baia de Guanabara nem sempre é fácil. Quantos litros de esgoto estão sendo despejados de forma irregular? Quanto o saneamento básico custa por pessoa? Quantas crianças já adoeceram por conta da poluição nos corpos de água em suas áreas? Neste caso, os números estão evidentes e a realidade é inescapável. O que falta é a análise do contexto histórico e cultural, ou genético, que leva a esses resultados alarmantes e persistentes. Desde a criação do movimento Higienista no Rio de Janeiro, hoje somos no mínimo a quinta geração a testemunhar o desenvolvimento desastroso da metrópole que se debruça na baia. É preciso conhecer o que nos foi herdado do DNA dessa cidade, batizada pelo magnífico e inusitado corpo de água – Guanabara. _ Texto por Mirna Wabi-Sabi Fotografia por Fabio Teixeira

  • A Magia da Água na Tailândia e a Religião da Prosperidade

    A Tailândia é um país único e orgulhoso. As suas línguas e espiritualidade decorrem de uma intersecção particular entre o Pali, a língua sagrada do Budismo Theravada, e o Sânscrito, a língua sagrada do Hinduísmo. A monarquia tailandesa é proeminente e o foco na riqueza emana não apenas da cultura como um todo, mas especificamente da devoção espiritual da população. Qualquer indivíduo turista na Tailândia está propenso a ficar “templotado”; esgotado de tantos templos, de todos os tamanhos e em todos os lados. Esses templos, que muitas vezes são recém-construídos e cuidadosamente mantidos com tinta branca e folhas de ouro, de forma alguma são feitos para o observar da pessoa estrangeira. Na verdade, pessoas não-praticantes podem se sentir intrusas, cercadas pela população local adorando apaixonadamente. Esse paradigma tailandês desconstrói a percepção dominante no Ocidente de que as riquezas espirituais e materiais estão em conflito umas com as outras, que toda a riqueza (ou o desejo por ela) é um avanço do capitalismo, e não da alma. A comunidade de imigrantes na Tailândia é composta, em grande parte, por homens brancos que se casaram com mulheres tailandesas. A questão do turismo sexual, em combinação com uma nova lei que descriminaliza a maconha, dá a alguns pontos de Bangkok uma energia de luz vermelha de Amsterdã. E embora exista um conservadorismo religioso generalizado que enxerga esse consumo de drogas e entretenimento sexual como tabu, a visão de riqueza e prosperidade material, de alguma forma, supera outros aspectos da moralidade religiosa. A riqueza e a prosperidade são partes significativas da devoção tailandesa e não estão necessariamente em conflito com outras práticas e crenças espirituais. Os templos têm cofres, ouro não falta, e tanto o dinheiro quanto as folhas de ouro são ritualizados. Isso, por si só, está longe de ser incomum para quem cresceu testemunhando a devoção católica e a configuração ornamentada das catedrais. Mas o que mais me chamou a atenção, devido ao meu fascínio por mini-lagos, é a quantidade de elementos aquáticos em espaços públicos. “A água desempenha um papel importante em muitas religiões” (página 5), ​​e a ideia de água benta é bastante familiar para pessoas cristãs. Mas na Tailândia, os laguinhos parecem ir além do domínio do templo religioso; eles têm uma função pessoal e são implementados em todas as oportunidades. Lagos em vasos de cerâmica com nenúfares lindos (e caros), bombas de água para fontes, espelhos d'água, etc., estão por toda parte. Sem falar nos festivais que acontecem em toda a cidade, que consistem em jogar água em tudo e todos nas ruas. A tradição tailandesa claramente observa a água de forma particular. Ao perguntar por que tantas entradas de estabelecimentos têm elementos aquáticos, pequenos, mas luxuosos, pessoas apresentam diversas explicações. Imigrantes dirão que é simplesmente bonito ou que vem do Feng Shui. Alguns moradores dirão que, tradicionalmente, era comum ter água disponível para as pessoas beberem durante a época de seca, ou para as pessoas lavarem os pés antes de entrar em casa. E alguns dirão francamente – é algo que atrai riqueza. Um artigo de 2022 da Universidade de Naresuan, denominado “Água” no Regime de Tradições e Rituais Tailandeses, descreve essa observância da água como decorrente de tradições “grandes” e “pequenas” – “grandes” como nas escrituras budistas e hindus, e “pequenas”, como na agricultura local e na ancestralidade. Obviamente, a agricultura requer água, mas o cultivo do arroz, em particular, requer inundação. O arroz não precisa de terras inundadas para prosperar, mas ele prospera nelas, enquanto outras plantas não. Assim, historicamente, esse alimento básico da dieta tailandesa informou a cultura tailandesa e como ela aborda os altos e baixos das estações de seca e chuva; as idas e vindas da água como uma abordagem prática para a prosperidade e a abundância. Diz-se que o povo Isan do norte da Tailândia, por exemplo, consagra a água num ritual para o cultivo do arroz (página 116). A água, na tradição tailandesa, ao observar as escrituras budistas e hindus, simboliza “o meio para conectar este mundo ao mundo sagrado”. A água é uma deusa chamada Phra Mae Thorani, retratada nos logotipos das empresas de distribuição de água em toda a Tailândia e do partido político mais antigo do país. A água também é onde vivem os Nagas (página 30), seres míticos que protegem tesouros, entre outras coisas. Segundo a antiga lenda tailandesa, as cobras, como representação animista dessas divindades, não devem ser temidas, mas sim admiradas. Embora possam representar perigo quando provocados, eles também podem realizar desejos de riqueza e prosperidade. Essa é talvez a representação mais adequada de uma bifurcação moral na procura pela riqueza – capacidade de agir e prosperar, ou ganância exploradora. Os Nagas podem te trazer chuva, e isso irá regar suas plantações ou inundar a sua casa; um lembrete para sempre nutrir um coração justo ao visar riqueza. Como a água e a sua fauna, a flora parece ter um enorme significado espiritual no folclore tailandês. Flores aquáticas como o lótus (Nelumbo nucifera) e o nenúfar (Nymphaea) também são simbólicas tanto no budismo quanto no hinduísmo, e têm o mesmo nome em tailandês (ดอกบัว). Os nenúfares, em particular, podem ser vistos nos lagos em vasos de cerâmica ao redor de templos, santuários, edifícios da realeza e até mesmo em fachadas de lojas nas principais cidades da Tailândia, geralmente acompanhados por pequenos peixes betta, que são nativos do país. Nenhuma dessas fontes de água, com ou sem peixes, apresentam larvas de mosquitos; às vezes têm girinos, caracóis ou insetos barqueiros (quando não são tratados quimicamente ou são um chafariz). Um cultivar rosa de Nymphaea, nativa da Tailândia, leva o nome de Nang Kwak, a deusa da fortuna. Essa “Dama Acenando tem sido usada há muito tempo por comerciantes e vendedores de baixo nível, e é o único amuleto cujo significado inicial está no mercado” (página 365 do artigo A Geografia Sagrada dos Mercados de Bangkok). Nessa pesquisa, a autora descreve a “espiritualidade mercantil” como nada de novo, embora a sua popularidade tenha aumentado nas últimas décadas. Uma “religião da prosperidade” moderna mostra que, à luz de uma paisagem capitalista em rápida expansão, a espiritualidade, o folclore e a tradição não estão em conflito com a modernidade. A cultura tailandesa mostra como o animismo e o politeísmo são práticas espirituais contemporâneas por definição. No Ocidente, onde as religiões monoteístas se estabeleceram brutalmente como norma, o paganismo é muitas vezes enquadrado como algo do passado e os seus praticantes são reduzidos a reencenadores históricos. Mas enquadrar o Budismo como um substituto do paganismo, por exemplo, é completamente irrelevante e inadequado quando se observa a religião cívica da Tailândia. A fusão do folclore tailandês, do budismo e do hinduísmo está tudo menos enfraquecida diante a metropolização desenfreada. Não há nada de intrinsecamente contraditório em trazer essas tradições e crenças espirituais para o domínio das sociedades capitalistas contemporâneas; na verdade, elas podem ser uma tábua de salvação ao lidar com a falta de alma nas cidades grandes. Mirna Wabi-Sabi Mirna Wabi-Sabi é escritora, editora e fundadora da Plataforma9. É autora do livro Anarco-transcriação e produtora de diversos outros títulos da editora P9.

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